17 abril, 2018

À terça - imagens e palavras: "amizade"

“A amizade é uma filigrana de encontros.”

Frase de Francesco Alberoni, sociólogo e escritor italiano (1929-), in “Amo-te”, ed. Bertrand, 1997
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net.

13 abril, 2018

Viajando e aprendendo: CHINA











“Viajar é nascer e morrer a todo o instante”.
Victor Hugo, escritor francês (1802-1885)

Em 2006, eu e o Carlos visitámos a REPÚBLICA POPULAR  DA CHINA, uma das civilizações mais antigas do mundo, e estivemos em Pequim, Xi’an, Xangai, Guilin, Cantão, Guangzhou, Hong Kong e Macau.
No início do século XX, após a queda do poder centrado no imperador, foi proclamada a República Popular da China. Depois de uma intensa guerra civil que durou de 1945 a 1949, o Partido Comunista Chinês tomou o poder, sob liderança de Mao Tsé Tung, e iniciou a planificação económica. Após a morte de Mao, em 1976, Deng Xiaoping assumiu o poder e foi o responsável pela abertura económica da China ao mundo, depois de muitos anos fechada ao exterior.
A China, com uma área de 9,6 milhões de km2 (equivalente a 1/15 da superfície do mundo), tem cerca de 1.300 milhões de habitantes (equivalente a 1/5 da população do planeta), divididos por 56 etnias.
Devido à sua grande dimensão, a China tem uma enorme variedade de paisagens: grandes cordilheiras montanhosas (com o ponto mais elevado no Monte Everest), planaltos áridos, planícies e colinas.
O contraste entre o antigo (excepcionalmente preservado) e o moderno; a beleza das paisagens mais deslumbrantes e os muitos arranjos florais - até nos separadores das auto-estradas; o crescimento colossal das cidades e as tradições imutáveis nas zonas rurais; a alegria e o orgulho do seu povo a acolherem quem o visita, fizeram esta viagem inesquecível.
Pequim, capital da Republica Popular da China desde 1949, tem cerca de 17,3 milhões de habitantes na sua região metropolitana. No ano de 2006, a dois anos dos Jogos Olímpicos, as obras na cidade eram impressionantes. Num ângulo de 360º os guindastes conferiam à cidade uma visão colossal do trabalho em curso e da grandeza futura.
Respirava-se uma atmosfera ocidentalizada, num calor abrasador de Agosto, quando partimos à descoberta da Praça de Tian’amen (a maior praça do mundo), da Cidade Proibida (serviu de palácio às dinastias Ming e Qing) , do Palácio de Verão (exemplar dos clássicos jardins chineses), do Templo do Céu (integrado num vasto parque onde os chineses ocupam os seus tempos livres com danças, jogos e conversas), da Grande Muralha (na zona de Badaling, a cerca de 80 km de Pequim) uma das 7 Maravilhas do Mundo e, dizem, a única estrutura construída pelo homem a ser vista da lua.
Xi’an, uma das mais antigas cidades do país, com cerca de 3 milhões de habitantes, é a capital da província de Shaanki, centro histórico do rico vale do rio Wei.
Visita à sepultura do primeiro imperador chinês e do seu exército de 6 mil guerreiros de terracota (descoberto em escavações iniciadas em 1974), à Muralha da Cidade (imponente), à Torre do Sino e ao Pagode do Ganso Selvagem.
Xangai, localizada na costa este, é a maior cidade da China, com cerca de 20 milhões de habitantes. Devido à localização privilegiada e às intensas reformas económicas, Xangai tornou-se um dos mais importantes centros financeiros da China e o maior porto de carga do mundo. Visita aos edifícios da Bund, ao Jardim Yuyuan (localizado na zona velha da cidade de arquitectura tipicamente chinesa), ao Templo do Buda de Jade (mosteiro construído em 1882, para alojar estátuas de Buda). À noite partimos à descoberta dos edifícios iluminados do centro financeiro do distrito de Pudong, espelhados nas águas calmas do rio Yangtze. O espectáculo de luz é impressionante.
Guilin, situada na região autónoma Zhuang, de Guangxi, tem cerca de 1,4 milhões de habitantes. Visita à Colina Tromba de Elefante e à Colina Fubo. O cruzeiro no rio Li brindou-nos com um espectáculo de paisagens inesquecíveis e únicas.
Cantão é a capital da província de Guangdong, no sul da China e tem cerca de 5,7 milhões de habitantes. Visita ao Parque Yuexiu, à Torre Zhenhai, ao templo taoista Wuxian, ao túmulo de Nanyue e ao monumento em honra do Dr Sun Yat-sen.
Hong Kong, ex-colónia do Império Britânico até 1997, localiza-se na costa sul da China a 60Km de Macau. Tem cerca de 7 milhões de habitantes (95% chinesa), numa área de 1.054 Km2. Possui o seu próprio sistema legal, moeda e leis de imigração. Partir à descoberta do melhor local para admirar os inúmeros arranha-céus iluminados, é uma aposta de encantamento que ficará para sempre na nossa memória. O resto foi… compras e mais compras…
Macau, que foi colonizada e administrada por Portugal durante mais de 400 anos é, desde 1999, uma Região Administrativa Especial da República Popular da China. Está localizada na costa meridional da China e é constituída pela Península de Macau, ilhas da Taipa e de Coloane e pelo istmo de Cotai. Com uma área de 28,6 km2, tem uma população de cerca de 538 mil habitantes, o que faz dela a cidade com maior densidade populacional do mundo. Macau vive presentemente um grande desenvolvimento económico nas áreas do jogo, turismo e hotelaria. Visita às ruínas de S. Paulo, à Fortaleza do Monte, ao Templo Kun Yam, ao Leal Senado, ao Casino Lisboa. Passeio a pé pela cidade e descoberta de um café onde comemos uns deliciosos pastéis de nata. Verdade!
Foi uma viagem FABULOSA!
Recomendo!

10 abril, 2018

À terça - imagens e palavras: "muros"

“A nossa vida está cheia de instâncias restritivas e muros que ocultam. Deus vê-se menos.”

Frase de JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, presbítero e poeta português (1965-)
(Veja mais no blogue "Pétalas de Sabedoria")
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06 abril, 2018

"Por trás daquela janela...."


Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesma estuda
No desejo que a revela.

Não tenho falta de amor

Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.

Porquê? Se eu soubesse, tinha

Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.

Sempre que posso sonhar,

Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar:
Além da cortina é o lar,
Além da janela o sonho.

Assim, passando, entreteço

O artifício do caminho
E um pouco de mim me esqueço.
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.
Poema de Fernando Pessoa (1883-1935)

Sabia que:
"Fernando António Nogueira Pessoa nasce a 13 de Junho de 1888, às 3.20 da tarde, no quarto andar esquerdo do nº 4 do Largo de São Carlos em Lisboa. São seus pais Maria Magdalena Pinheiro Nogueira, natural da Ilha Terceira, nos Açores, de vinte e seis anos, e Joaquim de Seabra Pessoa, natural de Lisboa, de trinta e oito anos, funcionário Público no Ministério da Justiça e critico musical do «Diário de Noticias». Com eles vivem a avó paterna, Dionísia, doente mental, e duas criadas velhas, Joana e Emília.
A 21 de de Julho é baptizado na Igreja dos Mártires. São seus padrinhos a Tia Anica, irmã da mãe, e o General Chaby. "
"Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre.

Não sabia?  Eu também não!
O que importa é que agora sabemos.
Prometo partilhar mais informações sobre a vida do poeta do desassossego.

(Foto cedida pela LUISA, do blogue "À Esquina da Tecla". Obrigada!

03 abril, 2018

À terça - imagens e palavras: "espelho"


“Pode estar-se vezes sem fim diante do espelho sem realmente uma pessoa se ver.”

Frase de John Steinbeck, escritor norte-americano (1902-68), in "O inverno do nosso descontentamento", Ed, Circulo de Leitores, 1993
Prémio Nobel de Literatura, 1962

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29 março, 2018

PÁSCOA ABENÇOADA!

Desejo a todos os amigos que passam por aqui, uma Santa Páscoa!
Domingo de Páscoa, dia em que Jesus venceu a morte e ressuscitou, CELEBREM A VIDA COM AMOR.
O amor tudo vence!

AMOR
"Quando propus a teoria da relatividade, muito poucos me entenderam, e o que lhe revelarei agora para que o transmita à humanidade, também a chocará contra a incompreensão e os preconceitos do mundo. Peço-lhe mesmo assim, que o guarde o tempo todo que seja necessário, anos, décadas, até que a sociedade haja avançado o suficiente para acolher o que lhe explico a seguir.
Existe uma força extremamente poderosa para a qual a ciência não encontrou ainda uma explicação formal.
É uma força que inclui e governa todas as outras, e que está inclusa dentro de qualquer fenómeno que actua no universo e que ainda não foi identificada por nós.
Esta força universal é o Amor.
Quando os cientistas buscam uma teoria unificada do universo, esquecem da mais invisível e poderosa das forças.
O amor é luz, já que ilumina quem o dá e o recebe.
O amor é gravidade porque faz com que umas pessoas sejam atraídas por outras.
O amor é potência, porque multiplica o melhor que temos e permite que a humanidade não se extinga no seu egoísmo cego.
O amor revela e desvela. Por amor se vive e se morre.
Esta força explica tudo e dá sentido em maiúscula à vida.
Esta é a variável que temos evitado durante tempo demais, talvez porque o amor nos dá medo, já que é a
única energia do universo que o ser humano não aprendeu a manobrar segundo seu bel prazer.
Para dar visibilidade ao amor, fiz uma simples substituição na minha mais célebre equação.
Se no lugar de E=mc² aceitarmos que a energia necessária para sanar o mundo pode ser obtida através do amor multiplicado pela velocidade da luz ao quadrado, chegaremos à conclusão de que o amor é a força mais poderosa que existe, porque não tem limite.
Após o fracasso da humanidade no uso e controle das outras forças do universo que se voltaram contra nós, é urgente que nos alimentemos de outro tipo de energia.
Se quisermos que a nossa espécie sobreviva, se nos propusermos encontrar um sentido à vida, se desejarmos salvar o mundo e que cada ser sinta que nele habita, o amor é a única e última resposta.
Talvez ainda não estejamos preparados para fabricar uma bomba de amor, um artefacto bastante potente para destruir todo o ódio, o egoísmo e a avareza que assolam o planeta.
Porém, cada individuo leva no seu Interior, um pequeno mas poderoso gerador de amor cuja energia espera ser liberada.
Quando aprendermos a dar e receber esta energia universal, querida Lieserl, comprovaremos que o amor tudo vence, tudo transcende e tudo pode, porque o amor é a quintessência da vida.
Lamento profundamente não ter sabido expressar o que abriga meu coração, que há batido silenciosamente por você toda minha vida.
Talvez seja tarde demais para pedir-lhe perdão, mas como o tempo é relativo, preciso dizer-lhe que a amo e que graças a você, cheguei à ultima resposta.
Seu pai,
Albert Einstein”
(Carta póstuma de Albert Einstein, para a filha Lieserl.)

27 março, 2018

À terça - imagens e palavras: "humanidade"


“Quando eu nasci, as frases que hão-de-salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.”

Frase de Almada Negreiros, pintor e escritor português (1893-1970)
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
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23 março, 2018

"A substância do AMOR e outras crónicas" - José Eduardo Agualusa

Com o tempo o tempo encolhe. Lembro-me de que quando era criança e andava na escola primária as Férias Grandes eram realmente grandes, podíamos mudar de vida várias vezes, emagrecer, engordar e emagrecer outra vez, e ainda sobravam férias. Naquela época, dez anos confundiam-se com a Eternidade. “Com o tempo o tempo encolhe”
Lançado em 2000, este livro de crónicas de José Eduardo Agualusa publicadas na Pública, revista do jornal Público, comprova a qualidade de escrita do escritor angolano.
Reúne 50 textos curtos - distribuídos por três grupos Ficções, Inquietações, Paixões - que abordam diversos temas, alguns bem complexos como as relações entre homens e mulheres, com muito humor e grande acutilância crítica.
Substância do amor”, escolhida para título do livro, está no primeiro grupo. São duas páginas mal cheias de texto, um presente de amor e humor:
“ELA AINDA O AMAVA: «O amor é apenas o princípio do ódio.» Dizia estas coisas terríveis com uma convicção que assustava as amigas. (…) «O verdadeiro amor é contraditório». Agora tinha a certeza de que seria feliz para sempre – e infeliz algumas vezes: «É preciso conhecer a noite para apreciar o dia».
As amigas cansaram-se dos seus aforismos. Uma irritou-se: «Achas que sabes realmente tudo sobre o amor?»
Ela estava tão feliz que não se importou. Não sabia, claro, porque «todo o amor é um mistério». Mas estava feliz e a felicidade fazia-lhe bem à pele: «Deviam isolar a substância do amor e colocá-la nos cremes de beleza.»" (...)
Se o Lobo Mau fosse angolano” do segundo grupo, é para ler e reflectir:
“SE O LOBO MAU FOSSE AMERICANO TERIA COMIDO A AVOZINHA, o Capuchinho Vermelho, o Caçador e ainda toda a Comissão de Inquérito nomeada pelas Nações Unidas para investigar o caso. Um Lobo Mau japonês faria a mesma coisa, mas com tal eficiência e descrição que ninguém daria por nada.
Imaginemos agora um Lobo Mau angolano: com toda a certeza chegava a um acordo com o Capuchinho e juntos comiam a Avozinha. A seguir o Lobo Mau comia o Capuchinho e acusava o Caçador.” (...)
Como amar uma mulher (e sobreviver)” do terceiro grupo, é para rir, rir, rir:
“ESTA É UMA CONVERSA SÓ PARA HOMENS. Minhas senhoras, queridas leitoras, por favor saiam neste parágrafo e fechem a página. Saíram?
Será que saíram todas?
Estamos então entre nós. Bom, é que eu preciso de desabafar. Sou um homem que gosta de mulheres (…) são poucos os homens que gostam de mulheres. É para estes, na verdade, que eu escrevo esta crónica. Os outros, os que pensam que gostam de mulheres – mas nunca entrançaram o cabelo no seu amor – esses podem também fechar a página.
Agora sim, estamos entre nós. (...)
Querem saber agora qual é o segredo para amar uma mulher e sobreviver?
Eu também.”

Termino com o magnífico início da primeira crónica “Borges no inferno”:
JORGE LUIS BORGES SOUBE QUE TINHA MORRIDO quando, tendo fechado os olhos para melhor escutar o longínquo rumor da noite crescendo sobre Genebra, começou a ver.
Se gosta de ler pequenas histórias tanto quanto eu, este livro é para si.
Compre, leia, divirta-se!

A substância do amor e outras crónicas, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2017
184 págs.

21 março, 2018

Dia Mundial da POESIA


“… a poesia ou nos fala de imediato ao coração ou pura e simplesmente não nos diz nada. Um lampejo de revelação e um lampejo de resposta. Como um relâmpago. Como quem se apaixona.”

 J. M. Coetzee, escritor sul africano (1940-), in “Desgraça”, ed. D. Quixote, 2000
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20 março, 2018

À terça - imagens e palavras: "música"


“...ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer devorada...”

Frase de António Mega Ferreira, escritor e jornalista português (1949-), in "Amor", Ed. Assírio & Alvim, 2002
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
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19 março, 2018

PAI


PAI, tu foste o melhor pai do mundo.
Tu foste o ser que eu mais amei,
Tu foste o meu herói, o meu exemplo.
Contigo aprendi o significado da palavra honestidade,
Da palavra respeito, da palavra generosidade.
Contigo aprendi a fazer amigos de todas as cores.
Contigo aprendi que a vida nem sempre é como nós esperamos, 
que exige sacrifícios, cedências.

Que orgulho eu sentia quando diziam que era parecida contigo.

Já partiste mas eu penso em ti todos os dias.
Dói muito não ter estado mais vezes ao teu lado,
não ter dito todos os dias que te amava,
não ter acariciado o teu cabelo branco,
não ter pedido o teu conselho sempre que vacilava no caminho.

Recordo com muito carinho o nosso reencontro em Moçambique,
após dois anos de separação.
Eu, a mana e a mãe chegámos ao cais de Lourenço Marques,
depois de 31 dias no mar.
Fui a primeira a ver-te, no meio de uma ruidosa multidão
que aguardava a chegada de familiares da metrópole. Que alegria! 
Do alto dos meus seis anos gritei e gesticulei tentando chamar a tua atenção.
Queria-te só para mim. 
Quando me ergueste do chão e me abraçaste,  molhei o rosto nas tuas lágrimas de alegria.
No aconchego dos teus braços senti-me forte, maior e segura.  
(Sabes pai, a lembrança daquele abraço ainda me aconchega nas horas de desalento.)
Lembro que fizemos de mão dada o caminho para casa, 
e na tua mão sentia o bater do teu coração.
Durante dias rezei e pedi ao Jesus que não voltasse a separar-nos.
Não tinha sido fácil viver sem ti.

Adoravas música. E que bem tocavas acordeão e guitarra.
Nunca quis aprender contigo. Hoje arrependo-me.
Gostavas de futebol e eras adepto do Sporting.
Chegaste a jogar no Belenenses de Lourenço Marques.
Gostavas de conviver e divertir-te. Junto de ti a festa era incessante.
Apoiavas, aconselhavas e respeitavas os amigos. Tinhas tantos!
Amavas desmesuradamente a tua família.
Aprendi a amar a minha, contigo!

Partiste há vinte anos, sem permitir que me despedisse de ti.
A dor foi enorme. Zanguei-me contigo.
Fiz as pazes quando percebi que continuávamos juntos,
ligados por um amor maior - o amor do coração.
Amo-te, pai!

16 março, 2018

"A vida é o sarro do tempo"


"Temos 25 anos para fazer boa figura. Esta lei, precisa como as leis da física, ordena que aspiremos à perfeição entre os 20 e os 45 anos. (…)
Aos 20 anos somos todos imortais, e sobre essa imortalidade não cai a luz, a decadência. Por mais miserável que seja a vida quotidiana, o espelho devolve uma pele que nos cobre lisa, um cabelo que cresce forte, um olhar que rebrilha. As mãos são fortes e as unhas rosadas. As pernas correm sem esforço e os braços capturam tudo o que podemos abraçar. A sorte de ter 20 anos é a sorte das coisas intactas, da matéria intacta. Da natureza selvagem. O corpo e a mente obedecem sem contrariedade e com prazer. (…)
A partir dos 40 anos, o sino dobra aos 45, a marcha para a morte anuncia-se sem alarme. (…) Aos 40, a beleza começa a ausentar-se com discrição. A pálpebra descai, a ruga cava-se ao canto dos lábios, a pele conhece dias macilentos. Os ossos, como o resto do corpo, começam a perder substância e a ganhar paciência. E a mente começa a dar erros, pequenos e impercetíveis erros, deslizes reparados no instante em que acontecem. A experiência e a sageza dos 40 compensam as diminutas falhas, e hoje considera-se esta a idade do esplendor. A da maturidade. A do sucesso. A do tempo vencido.
(…) nada, aos 60 anos, nos prepara para a violência terminal dos invernos (…) 
Os 80 anos trazem um cortejo de iniquidades e indignidades. (…) Se a mente levou o caminho do corpo e se ausentou para parte incerta, a velhice é uma prisão. Os olhos embaciados escondem uma interrogação. Perdida a bússola, vagueamos sem situação no Cosmos. A memória aniquila o tempo anterior e dissolve as memórias em ácido. A vida é o sarro do tempo. (…)

Excerto da crónica “A morte excede-nos”, de Clara Ferreira Alves (jornalista e escritora portuguesa, n. 1956), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 3 Março 2018
Vale a pena ler na íntegra.

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13 março, 2018

À terça - imagens e palavras: "envelhecer"



Envelhecer é passar da paixão à compaixão.”

Frase de Albert Camus, escritor e filósofo (1913-60)
Prémio Nobel de Literatura, 1957
(Veja mais no blogue "Pétalas de Sabedoria")
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09 março, 2018

"Não se pode morar nos olhos de um gato" - Ana Margarida de Carvalho

«Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato»
(ALEXANDRE O’NEILL, Poema do Desamor)
Sinopse: Em finais do século XIX, já depois da abolição da escravatura, um rumbeiro clandestino naufraga ao largo do Brasil. Um grupo de náufragos atinge uma praia intermitente, que desaparece na maré cheia: um capataz, um escravo, um mísero criado, um padre, um estudante, uma fidalga e sua filha, um menino pretinho ainda a dar os primeiros passos… Todos são vencedores na morte, perdedores na vida. O mar, ao contrário dos seus antecedentes quotidianos, dá-lhes agora uma segunda oportunidade, duas vezes por noite, duas vezes por dia. Ao contrário do que pensam, não estão sós naquele cárcere, com os penhascos enquanto sentinelas, cercados de infinitos, entre o céu e o oceano. Trazem com eles todos os seus remorsos, todos os seus fantasmas. E mais difícil do que fazerem-se ao mar ou escalarem precipícios será ultrapassarem os preconceitos: os de raça, os de classe social, os de género, os de credo. Para sobreviverem, terão de se transformar num monstro funcional com muitos braços e muitas cabeças; serão tanto mais deuses de si próprios quanto mais se tornarem humanos e conseguirem um estado de graça a que poucos terão acesso: a capacidade de se colocarem na pele do outro.”
… o mar não é de confiança.
“Não se pode morar nos olhos de um gato”, segundo livro de Ana Margarida de Carvalho, é um romance magnífico e inteligente, que surpreende pela originalidade e minúcia da prosa.
Começa com o monólogo da “Nossa Senhora de Todas as Angústias”, a santa de madeira padroeira do navio naufragado - Santa sou, mulher mal-amada. Ressabiada, só se lembram de mim na aflição -que a tudo assiste, tudo comenta, e todos critica: Os seus corpos não são corpos, ai, que vos digo eu, são cabides de ódio e má fortuna.
São cinquenta páginas de uma torrente de palavras cruas e duras, que se estranham e quase me fizeram desistir. Ainda bem que o não fiz pois logo, logo, tudo se entende, a linguagem torna-se acessível, as personagens são apresentadas, a história entranha-se, as páginas devoram-se e, no fim, aplaudi efusivamente a singular luta dos náufragos contra a maldição do mar, na ilha onde esperavam por salvamento.
Acontece que, a salvo estavam ali dos respectivos destinos (…) dos passados que a todos atormentavam. Sobretudo dos remorsos e culpas.
E mais não conto. Leia, deixe-se levar pelo sonho e deslumbre-se com as estratégias de sobrevivência de homens e mulheres que buscam a salvação.
Já todos demasiado extenuados,
bando de náufragos inválidos.
Libertos do medo, com medo de já não sentir medo.

Romance avassalador, um dos melhores que li.

Não se pode morar nos olhos de um gato, de Ana Margarida de Carvalho
Ed. Teorema, 2016
350 págs.

08 março, 2018

MULHER


“Sei uma coisa. Sei que não são os vestidos que fazem as mulheres mais ou menos bonitas, nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos enfeites. Sei que o problema está algures. Não sei onde. Sei só que não está onde as mulheres julgam.”

Marguerite Duras, escritora francesa (1914-96), in “O amante”, Ed. Difel, 1992
(Foto da net)

06 março, 2018

À terça - imagens e palavras: "fome"


“Quanto se tem muita fome só há fome.”

Frase de Ana Margarida de Carvalho, escritora portuguesa (?), in “Não se pode morar nos olhos de um gato”, Ed. Teorema, 2016
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net.

02 março, 2018

"Se a vida te der limões... faz limonada!"


Depois do “chocolate quente”, para aquecer nos dias frios de inverno, compartilho agora a receita de uma bebida  refrescante e depurativa, para os dias quentes de verão: limonada!
Não comece já a espremer um limão. Não, não! Para esta receita vai precisar de muitos limões, apanhados do seu limoeiro (que sorte!) ou comprados no mercado da esquina. Ah, e também...  de muito açúcar. Calma, não desista já, a receita é um "concentrado de limão" e com ele vai depois poder preparar, rapidamente, não uma mas MUITAS limonadas.
A receita é da mãe da minha amiga Cristina.  Eu já a testei e já a dei a quem a experimentou e gostou, e já a divulguei num outro lugar (aguarde que eu já digo qual é). Por saber que é excelente, fácil de preparar e económica, compartilho-a com todos vós.
(Agora sim, vejo um "sorriso bronzeado" às amigas (os) que vivem… num país tropical!)

Concentrado de limão
Ingredientes:
. 1 litro de sumo limão
. 1 kg açúcar
Preparação:
Numa panela deite o sumo de limão e o açúcar e mexa até este se dissolver.
Junte depois as cascas dos limões e leve ao lume, evitando mexer para não fazer muita espuma.
Deixe ferver por 5/6 minutos. Retire do lume, limpe de toda a espuma e deite fora as cascas.
Depois do concentrado arrefecer deite-o em frascos ou garrafas, feche e guarde num lugar fresco e escuro. Dura meses, sem perder qualidades.
Para preparar "a sua"limonada,  deite num copo água, gelo e... uma colher (sopa) do concentrado. Se gostar, perfume com hortelã.
Feito!

Agora, vamos ao outro lugar onde divulguei esta receita: a minha "Cozinha de Afectos".
Iniciei o blogue em 2010 e nele fui postando, com grande entusiasmo, doces e salgados que preparava na cozinha cá de casa. Na altura éramos três a comer (testar): eu, o marido Carlos e a filha Susana , (o filho Miguel já vivia no Porto). Logo depois, a filha foi viver para Inglaterra e passámos a ser apenas dois à mesa. Dois decididos a seguir uma alimentação mais saudável: muito peixe-pouca carne; muita fruta-poucos doces. Aí, passei a ter pouco "material" para o blogue e pouquíssimo entusiasmo.  Em Novembro de 2015,  parei!
Entretanto, os anos passaram e algumas coisas mudaram: continuamos a comer saudável mas... um dia ou outro esquecemos as regras, e sempre que somos mais à mesa, chegamos a ignorá-las...
Como compreenderão continuei a cozinhar e, por graça, de vez em quando a fotografar os cozinhados.  Lamentavelmente  o entusiasmo não era o suficiente para voltar a postar.
Esta semana, deu-se o clique e decidi voltar. E com um doce, o meu preferido: Arroz doce. 
Passe pela  minha "Cozinha de Afectos". Deixe sugestões, criticas (construtivas), elogios (sabem sempre bem), receitas (porque não?), ou deixe apenas um sinal de que por lá passou.
Eu vou gostar. Muito!

27 fevereiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "inverno"


“A vida é um longo inverno, para quem não conhece o amor.”


Carla M. Soares, escritora portuguesa (1971-), in “Alma rebelde”, Porto Editora, 2012
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.

23 fevereiro, 2018

"Plenos poderes" - Pablo Neruda

"Plenos Poderes" (1963), colectânea de 36 poemas curtos e grandes odes, reúne a melhor e mais representativa poesia de Pablo Neruda, escrita no período mais produtivo da sua vida. 
Seleccionei o poema título da antologia mas oportunamente postarei versos de algumas das odes mais celebradas da obra do poeta chileno, Prémio Nobel da Literatura, 1971.

Comprei este livro numa livraria de livros usados (ou em segunda-mão, como queiram) duma vila do distrito de Lisboa, conhecida pelo seu belíssimo Palácio Nacional.
Loja pequenina, de paredes forradas de livros. Um lugar especial para quem gosta de ler.
Eu "perdi-me" lá dentro. Queria comprar tudo. Folhear tudo. Cheirar tudo. Imaginei-me "a feliz proprietária" daquela loja pequenina a abarrotar de livros. Leria-os todos!
Ali só não gostei do empregado, um jovem na casa dos trinta anos, muito hábil a fugir das questões que eu colocava sobre um ou outro livro ou autor. Estranhei!
Descobri porquê quando, já à saída, lhe perguntei «Rodeado de tantos livros imagino que tenha lido a maioria?» e ele respondeu com um sonoro e sorridente «NÃO! Não gosto de ler livros, só revistas, de preferência de desporto».
Aturdida, consegui balbuciar «não sabe o que perde» e agarrei-me ao braço do meu marido que me disse ao ouvido «vamos almoçar» e me levou dali.
Não gosto de ler livros... Como é possível!

PLENOS PODERES 
A sol descoberto escrevo, em plena rua,
em pleno mar, aonde posso canto,
somente a noite errante me detém
mas nessa interrupção ganho espaço,
recolho sombra para muito tempo.

O trigo negro da noite cresce
enquanto os meus olhos medem a planície
e assim de sol a sol forjo as chaves:
procuro na escuridão as fechaduras
e vou abrindo ao mar as portas rachadas
até encher armários com espuma.
E não me canso de ir e vir
com a sua pedra a morte não me retém,
não me canso de ser e de não ser.

Às vezes pergunto-me de onde
se de pai se de mãe se de cordilheira
herdei os deveres minerais,

os fios de um oceano aceso
e sem parar sei que continuo, que prossigo
e canto, no canto prosseguindo sem parar.

Não tem explicação o que acontece
quando fecho os olhos e circulo
como por entre dois canais submarinos,
na sua ramagem leva-me um para a morte
e canta o outro para que eu cante também.

Assim do nada sou composto
e como o mar assalta o arrecife
com balões salgados de brancura
e desenha a pedra com as ondas,
assim o que na morte me rodeia
abre em mim a janela da vida
e em plena exaltação estou dormindo.
Em plena luz caminho pela sombra.

21 fevereiro, 2018

"Manual de um homicídio" - Gonçalo JN Dias


"Manual de um homicídio", segundo livro do autor independente Gonçalo JN Dias estará disponível gratuitamente em formato digital, entre os dias 20 e 24 de Fevereiro, 2018.

Se gosta de romances policiais, espreite os links:

Sinopse:
Marina, uma mulher de 38 anos com um relacionamento desgastado, apaixona-se por um colega de trabalho, casado e com um filho. Os dois têm uma relação tórrida. Um deles comete um assassinato.
Oscar, um polícia de homicídios, é encarregue do caso. É um homem dedicado ao seu trabalho e à sua família, que goza e brinca com as típicas series policiais norte-americanas.

O  primeiro livro de Gonçalo JN Dias, "O Bom Ditador - O Nascimento de um Império", obteve um relativo sucesso e está já traduzido em três outros idiomas.

Quando pedem, nada custa divulgar.
Sucesso, Gonçalo!

20 fevereiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "olhos"


“A vida é o que se vê nos olhos das pessoas.”

Virginia Woolf, escritora inglesa (1882-1941), in “Contos – Um romance que não foi escrito”, Ed. Relógio d’Água, 2004
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.

16 fevereiro, 2018

“Chocolate quente… uma delícia em estado líquido!”

“(…)Há clássicos que nunca passam de moda. Como o chocolate quente, por vezes o único conforto após um dia de chuva copioso. Se não quiser perder tempo, há umas quantas marcas de chocolate em pó que são garante de prazer – Monbasa, Godiva, Cadbury’s… Mas se lhe apetece uma versão caseira, precisa de chocolate em pó, açúcar amarelo, leite meio-gordo, farinha Maizena e chocolate culinário. Numa chávena, comece por misturar o chocolate em pó (1 colher de sopa), o açúcar amarelo (uma colher de chá) e a farinha Maizena (uma colher de chá). Vá juntando o leite (uma chávena) aos poucos, para unir a mistura. Ponha uma panela ao lume com o restante leite e junte tudo. Entretanto, derreta o chocolate culinário em banho-maria e adicione ao leite, sem parar de mexer. O chocolate quente está pronto quando estiver bem espesso. Se quiser, pode acrescentar uns pozinhos de especiarias a gosto: canela, pimenta rosa ou baunilha. E já está, uma delícia em estado líquido. (…)”
Quero que você me aqueça nesse inverno…”, o artigo de Katya Delimbeuf publicado na revista “E”, do jornal “Expresso” de 3 de Fevereiro 2018, aqueceu-me a alma. A mim e, sem dúvida alguma, a todos os que o leram. Atrevo-me a dizer que foi o texto mais docinho e aconchegante que li num jornal.
Além do “Chocolate quente” (a minha bebida-conforto preferida) Katya Delimbeuf também ensina  a fazer “Vinho quente”, “Irish Coffee”, “Sidra” e “Tchai” (chá tradicional indiano).

Hum! Já sinto os aromas e o calor da chávena nas mãos. Cozinha, aí vou eu…
Gente, compartilho todas as receitas quentinhas. É só pedir, tá?!

(Já agora, se ainda não provou o “chocolate quente” da pastelaria “Versailles" na Avenida da República, em Lisboa, corra para lá!)
Foto da net.

14 fevereiro, 2018

Namorar é andar de mãos dadas...

"Não quero que fiquem com a ideia de que ela era alguma pedra de gelo ou coisa assim, lá porque nunca fizemos amor nem estivemos na marmelada. Não era. Passava o tempo de mãos dadas com ela, por exemplo. Não parece grande coisa, bem sei, mas é que ela era bestial a andar de mãos dadas. A maior parte das miúdas se lhes damos os mãos, a merda das mãos delas ou «morre» na nossa mão ou então acham que têm de estar sempre a «mexer» a mão ou coisa assim. A Jane era diferente. Íamos à merda de um filme ou assim, e dávamos logo as mãos e não largávamos até o filme acabar. E sem mudar de posição e sem fazer disso uma grande coisa. Com a Jane, nem sequer me chateava a pensar se tinha as mãos suadas ou não. A única coisa que sabia é que era feliz. E era mesmo."


Excerto do extraordinário romance "À espera no centeio", de J.D. Salinger, que terminei de ler e oportunamente postarei no "roldeleituras."
O narrador é Holden Caulfield, um adolescente de dezassete anos.

NAMOREM MUITO!
Hoje e todos os dias.

Foto da net.

13 fevereiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "máscara"


“Dê ao homem uma máscara e ele se tornará quem realmente é.”

Frase de Oscar Wilde, escritor irlandês (1854-1900)
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.

09 fevereiro, 2018

"O escritor fantasma" - Philip Roth

Quando admiramos um escritor, tornamo-nos curiosos. Vamos à procura do seu segredo.
“Era a última hora de luz de uma tarde de dezembro, há mais de vinte anos – eu tinha vinte e três anos, estava a escrever e a publicar os meus primeiros contos e, tal como tantos heróis do Bildungsroman antes de mim, já pensava no meu próprio e volumoso Bildungsroman – quando cheguei ao refúgio do grande homem que ia visitar…”
Começa assim este excelente romance sobre as tensões entre a literatura e a vida.
O narrador é Nathan Zuckerman, problemático e ambicioso ficcionista judeu, alter-ego do ficcionista judeu e genial contador de histórias Philip Roth (n.1933) em nove hilariantes romances. “O escritor fantasma" (1979) marca o  aparecimento de Zuckerman, “O fantasma sai de cena “(2007) o seu desaparecimento.
O grande homem “é Emanuel Isidore Lonoff, consagrado contista, ídolo e mestre literário de Zuckerman desde os tempos da faculdade. O grande Lonoff, filho de judeus, que no auge da carreira literária, desiludido com as acusações dos judeus de New York personalidades intelectuais aterradoras, troca a civilização pelo isolamento na montanha. Em Dezembro de 1956, trinta anos depois dessa fuga nunca explicada, o “ermita rural” convida o escritor desconhecido (que lhe fez chegar quatro contos publicados em revistas literárias) para um serão na sua casa.
Pureza. Serenidade. Simplicidade. Reclusão. Toda a concentração, exuberância e originalidade de uma pessoa reservada para a vocação transcendente, extenuante, sublime. Olhei em volta e pensei: é assim que quero viver.
Depois de olhar melhor, Zuckerman encontra um homem envelhecido, austero, entediado, autocrítico, desencantado, conformado a uma existência onde nada acontece: Dou voltas às frases. A minha vida é isso. Escrevo uma frase e dou-lhe uma volta. Depois olho para ela e dou-lhe mais uma volta. Depois vou almoçar. Depois volto e escrevo mais uma frase. Depois leio e releio as duas frases e dou-lhes uma volta. Depois deito-me no sofá a pensar. Depois levanto-me e atiro-as fora e volto ao princípio. E, se descanso desta rotina durante um dia que seja, fico louco de tédio e a achar que foi um desperdício….
Zuckerman não se decepciona. Ainda espantado com o convite, tímido, ansioso, curioso, desejoso de tudo ver, tudo saber sobre o mestre, desejoso do seu reconhecimento, patrocínio moral e protecção mágica de apoio e amor, quer aprender com ele a escrever contos, contos sobre judeus, que evitem problemas com os judeus de Newark e com o seu pai podólogo e não artista, que tenta demovê-lo de publicar um conto que tem por base uma disputa familiar antiga que, segundo ele, expõe ao ridículo membros da família e será visto apenas como mais um conto sobre os malditos judeus e o seu amor ao dinheiro.
Na noite que passa em casa do mestre e da senhora Hope Lonoff,  Zuckerman conhece Amy Bellette, uma jovem fascinante de nacionalidade indefinida, antiga pupila de Lonoff (ou amante com metade da sua idade?), com uma vida de ilusão que a consome e um passado que a marcou na alma: sabes porque é que adotei este nome tão doce? Não foi para me proteger das minhas memórias. Não foi para esconder o passado de mim nem para me esconder do passado. Foi para me esconder do ódio, de odiar as pessoas como as pessoas odeiam as aranhas e os ratos.
(Amy Bellete volta a aparecer no romance “O fantasma sai de cena”).

Escusado será dizer que pouco devo/posso desvendar sobre o casal Lonoff, sobre o conto de Zuckerman, sobre o passado de Amy. Leia, divirta-se, espante-se com a imaginação e a escrita do meu escritor preferido. (Está velhinho o «meu» Philip Roth!)
Ponto final, parágrafo.

O escritor fantasma, de Philip Roth,
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2017
188 págs.

06 fevereiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "solidão"


“… a solidão, a verdadeira, conscientemente assumida, não é punição, nem uma forma ressentida e doentia de isolamento, nem uma excentricidade, mas o único estado digno de um ser humano.”


Frase de  Sándor Márai, escritor húngaro (1900-89), in “A mulher certa”, ed. Dom Quixote, 2009
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.

02 fevereiro, 2018

"Teremos de reaprender a arte de consolar..."

 

“(…) Esta coisa a que chamamos vida requer de nós a força de não soçobrar ao crepúsculo só porque não vemos logo, ou não vemos como, de tamanha escuridão possam irromper os improváveis traços da aurora. Teremos de reaprender a arte de consolar, rompendo com esta narcisista cultura da indiferença, que tende a universalizar-se como padrão para as relações humanas (…) Teremos talvez de estabelecer uma nova relação com a palavra e o silêncio, com o que nos é familiar e desconhecido, com a exterioridade e o nosso mundo interno acreditando mais na força reparadora das coisas simples, dos gestos quotidianos, dos tráficos minúsculos que melhor espelham a nossa humanidade e que, porventura, não encaramos ainda como uma reserva de sentido. É um erro pensarmos que, afundados numa provação, deixamos de contar para os outros e um desligamento ontológico nos isola, implodindo os laços. Não vemos que o mesmo sofrimento que nos fere também nos torna mestres em relação à vida e permite-nos dizer o que é que nos dá e retira vida, o que é que a nutre, o que é que a apaga. A partilha da provação pode ser incrivelmente fecunda. (...)"

Excerto da crónica “Da nossa necessidade de consolação”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 18 Novembro 2017
Vale a pena ler na íntegra.
(Foto da net)
CONSOLAR, acalentar, confortar, animar, alegrar e, porque não, abraçar.
Depois de ler esta crónica, tive o desejo genuíno de abraçar todo o mundo. Pudesse eu, ninguém ficaria sem conhecer o calor e sabor dum ABRAÇO.
Como nem todos os desejos se tornam realidade, grito para que todos me ouçam: O ACONCHEGO DUM ABRAÇO FAZ A VIDA ACONTECER.
Abracem muito!

30 janeiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "tempo"


“O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar somos seres vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos, e permanecemos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas depressa se produz uma outra mudança: os mortos tornam-se velhos mortos, ninguém mais se lembra deles e desaparecem no nada.”


Frase de  Milan Kundera, escritor checo (1929-), in “A festa da insignificância”, Ed. D. Quixote, 2014
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net.

26 janeiro, 2018

"O Deus das pequenas coisas" - Arundhati Roy

… o segredo das Grandes Histórias é elas não terem segredo nenhum. As Grandes Histórias são aquelas que já ouvimos e queremos voltar a ouvir. Aquelas onde podemos entrar e morar confortavelmente. Que não nos enganam com calafrios e finais acrobáticos. Que não nos surpreendem com o imprevisto. Que são tão familiares como a casa onde moramos. Ou o cheiro da pele de um amante. Sabemos como acabam, porém ouvimo-las como senão soubéssemos. Tal como, embora sabendo que um dia havemos de morrer, vivemos como se não o soubéssemos. Nas Grandes Histórias sabemos quem vive, quem morre, quem encontra o amor e quem não encontra. E, contudo, queremos saber de novo.
Por tudo isto, e muito mais que não é para aqui chamado, decidi reler “O Deus das Pequenas Coisas”(1997) - o primeiro romance de Arundhaty Roy, vencedor do Booker Prize - antes de ler “O Ministério da Felicidade Suprema”, publicado em 2017.
Vinte anos separam os dois romances. O que terá mudado na prosa mística e luminosa da indiana que cursou arquitectura e abandonou a ficção para se dedicar ao ensaio e à intervenção política?
Estou curiosíssima!
“O Deus das Pequenas Coisas” conta a história de três gerações de uma família do sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na terra natal. Uma história apaixonante, moralmente intensa, feita de pequenas histórias vividas por personagens inesquecíveis - os gémeos Rahel e Estha, a mãe Ammu, a avó Mammachi, o avô Pappachi, o tio Chacko, o misterioso Velutha... - numa época conturbada onde “só as pequenas coisas são ditas e as grandes coisas permanecem por dizer”, onde tudo pode acontecer a todos, onde tudo pode mudar num dia.

Se ainda não leu este arrebatador romance... LEIA!

O Deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy
Tradução de Teresa Casal
Ed. ASA, 1998
301 págs.

23 janeiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "gratidão"


“A gratidão é a memória do coração.”

Frase de Antístenes, filósofo da Grécia Antiga (-445/-365)
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net

Estou de volta, mas não totalmente restabelecida.
Esta gripe foi forte, muito forte mesmo. As coisas complicaram-se para o meu lado.
Continuo vigiada, medicada e debaixo de mantas quentinhas.
Ontem consegui iniciar a leitura de um livro de crónicas de José Eduardo Agualuza, aqui deixado pelo Pai Natal. Foi uma vitória!
Pouco a pouco a vida volta à normalidade.
Agradeço os comentários e mensagens de carinho e preocupação. 
Estou grata a todos, por tudo!

13 janeiro, 2018

Uma braçada de lírios, rosas e... gripe!

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me às mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas
E lírios também...

Versos de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, Portugal (1888-1935)
Aguarela em papel “Rosas sempre rosas”, de Léah Mae, pintora e cronista, autora do belo blogue “Minhas pinturas
Pois é, o vírus da gripe entrou, sem ser convidado, em minha casa. E não parece querer sair.
Há uma semana que por aqui anda fazendo estragos: começou pelo maridão e logo depois, pumba, apanhou-me pela garganta.
Ataquei-o com antigripais, xarope, pastilhas, canja quentinha, e mantas, mas… está difícil debelar a infecção: a tosse (cavernosa) continua, o pingo do nariz não pára de cair, os espirros frequentes rebentam-me com as costas, as dores passeiam-se por mim da cabeça aos pés.
A desgraçada da gripe veio para ficar.
Entretanto, o sofá tem sido o meu melhor amigo: esparramada nele, dormito, vejo filmes gravados há meses e leio pequenos poemas. Para grandes romances… não há clima!
Afinal, o que é mesmo a gripe?
Ninguém merece!

09 janeiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "silêncio"


“O silêncio é um amigo que nunca trai.”


Frase de Confúcio, sábio chinês (-551/-479)
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.
Já deu para perceber que gosto de frases curtas, pensamentos, provérbios, mensagens inspiradoras. Desde que me toquem no coração, não me importa que sejam de pessoas célebres ou desconhecidas, de personagens de romances (expressivas da sabedoria do autor), de versos sem rima nem métrica, de versículos da Bíblia, de revistas ou jornais. Tudo o que me ensina, emociona, empolga, eu sublinho, ou recorto, ou anoto em folhas soltas, caderninhos, agendas. E guardo!
Em Julho de 2012 decidi criar um blogue, um enorme baú como lhe chamei na altura, para as guardar e compartilhar: “Pétalas de Sabedoria” é o meu jardim de memórias perfumadas. Todos os dias, às onze horas, ali me encontro e encanto.

A vida é feita de pequenos nadas, neste caso, de pequenas frases.
Acredite!

05 janeiro, 2018

Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela...


"Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre! Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios lívidos pecassem mais palavras!
Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma… 
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos."


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

20 dezembro, 2017

BOM NATAL e um MAGNÍFICO 2018!


"Chega de velhas desculpas e velhas atitudes!
Que o ano novo traga vida nova, como o rio que sai lavando e levando tudo por onde passa."
Clarice Lispector, escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira (1920-77)


BOM NATALque seja muito mais do que uma reunião de pessoas à volta de uma mesa cheia de gulodices, com troca de beijos, abraços, sorrisos e prendas… muito mais!
MAGNÍFICO 2018 com saúde, amor, paz, felicidade e... leituras, muitas e boas leituras!

2017 foi para mim um ano complicado.
Valeu-me a companhia e a ternura da família.
Valeu-me o carinho dos amigos que o roldeleituras trouxe para a minha vida – fez toda a diferença.

GRANDE abraço, para todos.
Vivam intensamente, corram atrás dos vossos sonhos, sejam felizes.
Só temos uma vida, esta e mais nenhuma. Não esqueçam!

(Foto da net.)

19 dezembro, 2017

"A sociedade dos sonhadores involuntários" - José Eduardo Agualusa


Todos os sonhos são assustadores, porque são íntimos. São o que temos de mais íntimo. A intimidade é assustadora.
Peguei neste romance porque o misterioso título despertou em mim extrema curiosidade: sonhadores involuntários, o que é isto?
Então, folheei-o, espreitei a sinopse na contracapa, comprei-o e li-o em poucas horas, completamente cativa da história surpreendente e da escrita limpa e fluente de José Eduardo Agualusa.
"O jornalista angolano Daniel Benchimol sonha com pessoas que não conhece. Moira Fernandes, artista plástica moçambicana, radicadas em Cape Town, encena e fotografa os próprios sonhos. Hélio de Castro, neurocientista brasileiro, filma-os. Hossi Kaley, hoteleiro, antigo guerrilheiro, com um passado obscuro e violento, tem com os sonhos uma relação ainda mais estranha e misteriosa. Os sonhos juntam estas quatro personagens num país dominado por um regime totalitário à beira da completa desagregação."
- Os sonhos, ah, os sonhos! Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver, mas sem a grande mentira que é a vida. Talvez seja isso. Talvez seja o contrário disso. Nem sei. Acontece-me, por vezes acreditar numa determinada ideia e no oposto dela com idêntica paixão, ou sem paixão nenhuma. Nos últimos anos, aliás, venho perdendo cabelos e paixão. Também venho perdendo ideias e ideais. Talvez seja a velhice, talvez seja o nirvana. O que você acha?
Hum! Hum!

Como por norma não desvendo sonhos meus, também não vou desvendar os sonhos do Daniel, da Moira, do Hélio, do Hossi. Saiba tudo sobre os sonhos deles lendo “A sociedade dos sonhadores involuntários” - "uma fábula política, satírica e divertida, que desafia e questiona a natureza da realidade, ao mesmo tempo que defende a reabilitação do sonho enquanto instrumento da consciência e da transformação".
Ainda vai a tempo de pedi-lo ao Pai Natal (a razão porque o divulgo hoje no meu roldeleituras). Acredite, vai adorá-lo. É um sonho de romance! Como disse o escritor moçambicano Mia Couto «um romance tecido com os mais delicados materiais da poesia.»
Tenha ao seu lado um lápis bem afiado para sublinhar, sublinhar, sublinhar...
As frases que mais me tocaram, e que sublinhei, aparecerão em Janeiro no meu blogue pétalas de sabedoria. Leia e deslumbre-se!

Sonhos são sempre ecos de alguma coisa.
Sonhar é ensaiar a realidade no conforto da nossa cama.
Os sonhos têm a ver com a experiência emocional de cada um.
Lutar contra um sonho é como lutar contra a correnteza de um rio.

A sociedade dos sonhadores involuntários, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2017
277 págs.

(Foto da net)

15 dezembro, 2017

“O hábito da leitura” - Pedro Luso


“Não raro recebo mensagens de jovens e de adultos que dizem que gostariam de ter o hábito da leitura, pois não se sentem com o ânimo necessário para se aventurarem em leituras que exigem deles o dispêndio de muito tempo.
Dizem alguns, que se sentem frustrados quando fecham o livro iniciado sem chegarem ao final da história ou do poema. Dizem, ainda, que gostariam de continuar com a leitura iniciada, mas desistem.
Então, pedem que lhes indique qual o método que poderá levá-los a aprendizagem da leitura. (Isso, em se tratando de ficção, já que muitos estão interessados em outras leituras, que não ficção ou poesia.)

A resposta para essa pergunta, que pode parecer fácil é, ao contrário, bastante difícil. Para cada pessoa deve-se aplicar um método que se adapte com sua idade, escolaridade, sensibilidade, aspirações.
Daí podemos concluir que as pessoas mais indicadas para dar esse tipo de orientação são os professores, já que no dia a dia da vida escolar podem observar quais são as tendências e aspirações de seus alunos.
Quanto aos adultos, que não mais frequentam bancos escolares, deverão eles escolher o que mais se aproxima de seu gosto, que pode ser romance, conto, crônica ou poesia. Isso não quer dizer que não possam aderir a todos esses gêneros.
Depois que esse adulto estabelecer uma hora adequada para a prática da leitura, em lugar igualmente adequado, estará iniciada a rotina para as suas leituras, desde que não desista dessa importante empreitada.
Portanto, para as pessoas adultas, que não mais frequentam os bancos escolares, a aquisição do hábito da leitura dependerá unicamente deles próprios. Portanto, vontade e determinação é a receita para atingirem esse objetivo.”


Pensava eu que Pedro Luso só escrevia poesia, poesia realmente boa, mas estava enganada.
Ao bisbilhotar o seu "Blog Veredas" descobri crónicas encantadoras. Esta, sobre o hábito (saudável) da leitura, agradou-me tanto que decidi - sem autorização do poeta/cronista - trazê-la para o meu roldeleituras. Desculpa, Pedro!

Pintura “The Garden Window”,  de Daniel F. Gerhartz, EUA 1965