06 junho, 2017

A vida é uma viagem experimental...


A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e, como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito. (…)

Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de angustiado, à beira das lágrimas – não de lágrimas que se choram, mas que se reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível.
Tanto tenho vivido sem ter vivido! Tanto tenho pensado sem ter pensado! Pesam sobre mim mundos de violências paradas, de aventuras tidas sem movimento. Estou farto do que nunca tive nem terei, tediento de deuses por existir. Trago comigo todas as feridas de batalhas que evitei. Meu corpo muscular está moído do esforço que nem pensei em fazer.
Baço, mudo, nulo… “

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Desenho de Vincent van Gogh, pintor holandês (1853-90)

7 comentários:

  1. Pessoa é um fenómeno literário e um drama humano.

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  2. Haveria tanto a dizer sobre este texto!
    Em síntese, traduz o sentimento de quem viveu desajustado de uma nova sociedade republicana que abominava e refugiou-se totalmente na criação literária...
    Também celebro o seu génio no meu blogue de hoje.
    Dias felizes, Teresa.
    ~~~ Abraço ~~~

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  3. O desassossego de um grande poeta.
    Bom fim de semana
    Beijinhos
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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  4. São reflexões dramáticas deste grande poeta e gênio.
    Parabéns pela escolha.
    beijinhos, Léah

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  5. Mas quem não se sente um dia assim? Ou vários dias? Ele retratou nada mais do que a vida dos humanos, suas angústias, suas dúvidas. Seu baixo astral, aliás muito normal. Vi tudo normal.

    O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito.
    Delícia de postagem, Teresa, aqui estamos nós.
    Beijo, querida amiga!

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