21 novembro, 2017

Vou ali e já volto!


Hoje,
Nem a vida me foge,
Nem eu fujo;
É não sei quê no sol
Que está sujo.
(Versos de Miguel Torga, Portugal (1907-95)


Vou ali e já volto!!
Esperam-me na sala de operações, para uma pequena intervenção cirúrgica. Coisa pouca.
Aguenta coração!

17 novembro, 2017

"Contos de ... Machado de Assis"


… o universo é um composto de maldades e invejas…
Comprei o meu primeiro livro de Machado de Assis numa banca no corredor dum pequeno Centro Comercial. Achei pouco e queria mais. Nada mais ali havia.
Por essa razão, comecei a ler o prestigiado escritor brasileiro pelo terceiro volume da colecção de seis volumes de contos, organizada por João Cezar de Castro Rocha, que revela um lado pouco explorado do génio de Machado de Assis e apresenta os contos agrupados cronológica e tematicamente:
Vol. 1 - Música e literatura
Vol. 2 - Adultério e crime
Vol. 3 - Filosofia
Vol. 4 - Dissimulação e vaidade
Vol. 5 - Política e escravidão
Vol. 6 - Desrazão
Machado de Assis e a filosofia
Na Introdução João Cezar de Castro Rocha esclarece que neste volume o leitor não encontrará alusões a hipotéticas filiações de Machado de Assis a este ou aquele filósofo (…) Machado de Assis não foi (e nunca almejou ser) filósofo (… ) põe em movimento uma forma especial de reflexão, um modo particular de compreender o mundo, irredutível a sistemas ou escolas.
Esclarecida, iniciei a leitura do primeiro conto “Uma excursão milagrosa” (publicado no Jornal das Famílias, em Abril e Maio de 1866), em cuja trama, Tito, vinte anos, poeta e infeliz, sem inspiração e sem dinheiro, conhece um sujeito rico, maníaco pela fama de poeta, que lhe faz uma proposta tentadora: compra-lhe por bom preço todos os versos, preferencialmente odes e poesias de sentimento, com a condição de ele os poder dar à estampa como obra sua. Tito pensou, pensou e um dia procurou-o disposto a aceitar o negócio. O sujeito, rindo-se com um riso diabólico, fez o primeiro adiantamento
Gostei do primeiro contos, avancei para os restantes dezoito contos. Destaco alguns:
- “O Sainete” (publicado em A Época, 1875), neste, o Dr. Maciel, vinte e cinco anos, foi atingido mesmo no centro do coração por uma “seta do deus alado” - ama a viúva Eulália, mas ela ignora-o, com calculada crueldade; mas só até descobir a paixão da amiga Fernanda pelo jovem médico. A viúva descobriu-lhe os méritos com os olhos de Fernanda; e bastou vê-lo preferido para que ela o preferisse. Se me miras, me miram
- “A Igreja do Diabo” (publicado em Gazeta de Notícias, 1883) - Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Mais, decide comunicar a Deus a sua ideia.
Deus, adverte-o:
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires.
Humilhado, o Diabo insiste:
- Sim, sou o Diabo (...) não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio génio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso…
- “Evolução” (publicado em Gazeta de Notícias, 1884), tem este extraordinário início:
CHAMO-ME INÁCIO; ELE, BENEDITO. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: “Que valem os nomes? Perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro”. Vamos ao cheiro do Benedito...
"O Imortal" (publicado em A Estação, 1882) Meu pai sabia uma infinidade de coisas: filosofia, jurisprudência, teologia, arqueologia, química, física, matemática, astronomia, botânica, sabia arquitectura, pintura, música. Sabia o diabo...

Gostei bastante destes contos filosóficos”. Tanto que vou procurar os restantes volume da colecção. (Não fosse eu louqinha por contos...)
São histórias simples, lindas, comoventes, para ler e reflectir sobre a filosofia do tempo e o mistério da vida. 
Recomendo!


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu no Rio de Janeiro, em pleno Período Regencial.
Filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira (ambos sabiam ler e escrever), Machado de Assis não frequentou a universidade mas sempre mostrou um profundo interesse pelas letras.
Ganhou a confiança do Padre Silveira Sarmento, que viria a ser seu amigo, mentor espiritual e professor de latim.
Machado de Assis fez parte do grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, e foi seu primeiro presidente.
É um dos nomes maiores da literatura brasileira. Deixou uma extensa obra como romancista, cronista, poeta, dramaturgo, jornalista, critico literário, comentador e relator dos eventos político-sociais da sua época. Obra onde expôs a visão do mundo que o mantém lembrado e celebrizado.

14 novembro, 2017

Se um dia eu pudesse...


Se um dia eu pudesse adquirir um rasgo tão grande de expressão, que concentrasse toda a arte em mim, escreveria uma apoteose ao sono. Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
"Daphne", de  Frederic Leighton, pintor e escultor inglês (1830-96)

10 novembro, 2017

Poemas de... Pablo Neruda


MINHA ALMA
Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo.


ÁGUA ADORMECIDA
Quero atirar-me à água para cair no céu.


Poemas de Pablo Neruda, poeta chileno (1904-73), in "Crepusculário", 1923
Fotos de António Gomes, autor do blogue "Existe sempre um lugar".

07 novembro, 2017

"Crepusculário" - Pablo Neruda


AMOR
Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.

Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe- limpo de todo o mal -.

Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
                    e mais.
Pablo Neruda (pseudónimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto) é um dos grandes poetas da língua castelhana do século XX, e um dos mais lidos em todo o mundo.
Nasceu em Parral, Chile, em 1904.
Em 1923 publicou o primeiro livro "Crepusculário", com poemas escritos no período em que estudava pedagogia e francês na Universidade de Santiago. São poemas nostálgicos, de uma beleza estranha, sobre a vida, a mulher, o amor, a natureza. Revelava-se o poeta chileno da "voz original", o humanista, o poeta do amor.
O livro seguinte “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”(1924), consagrou-o como poeta universal.
Em 1927 iniciou uma longa carreira diplomática.
Marxista e revolucionário, defensor dos movimentos libertários, em 1945 ingressou no Partido Comunista do Chile.
Em 1945 recebeu o Prémio Nacional de Literatura do Chile; em 1953 o Prémio Lenine da Paz; e em 1971 o Prémio Nobel da Literatura.
Faleceu em Santiago, Chile, em 1973, vítima de cancro na próstata, diz a certidão de óbito. 
Em 2011 o Partido Comunista chileno exigiu em tribunal que a morte do poeta fosse investigada. Dois anos depois o corpo foi exumado e a equipa internacional de investigadores apurou que não foi o cancro que o matou. Doença ou assassínio, o mistério continua.
O filme “O Carteiro de Pablo Neruda” (Pablo Larraín, 1994) aborda aspectos da vida do poeta no final da década de 40. Se ainda não viu (duvido!!), veja. É belíssimo!

Não resisto a partilhar três versos do último poema do livro:

FINAL
...
Dizei-me, amigos, onde
esconder o silêncio, para que nunca mais outros
o sintam com os ouvidos e com os olhos.
...

31 outubro, 2017

SAPIENS - História Breve da Humanidade - Yuval Noah Harari

Três importantes revoluções moldaram o curso da história: a Revolução Cognitiva deu-lhe início há cerca de 70 000 anos. A Revolução Agrícola acelerou-a há cerca de 12 000 anos. E a Revolução Industrial, iniciada há apenas 500 anos, pode muito bem pôr fim à história e dar início a algo diferente. Este livro conta como estas três revoluções afetaram os seres humanos e os restantes organismos.
“A superfície do nosso planeta mede cerca de 510 000 milhões de quilómetros quadrados, dos quais 155 são terra. Mesmo em 1400 d.C., a grande maioria dos agricultores, juntamente com as suas plantas e animais, aglomerava-se numa área de apenas 11 milhões de quilómetros quadrados: dois por cento da área do planeta. A restante superfície era demasiado fria, demasiado quente, demasiado seca, demasiado húmida ou, por qualquer razão, inadequada ao cultivo. Estes minúsculos dois por cento da superfície terrestre constituíram o palco onde se desenrolou a história da humanidade.”

É assim, numa linguagem cativante, acessível a todos, que Noah Harari expõe a sua perspectiva original e inteligente sobre a evolução humana. Aqui e ali, a inclusão de mapas, fotos, esquemas e desenhos, torna a leitura mais  informativa e apaixonante.

"Há 70 000 anos, o Homo Sapiens ainda era uma animal insignificante que fazia a sua vida num canto de África. Nos milénios que se seguiram, transformou-se no senhor do mundo inteiro e num dos flagelos do ecossistema. Hoje, está prestes a tornar-se num deus, preparado para adquirir são só a juventude eterna como também as capacidades divinas da criação e da destruição. (…)
Avançámos das canoas para as caravelas, para barcos a vapor, para vaivéns espaciais - mas ninguém sabe para onde vamos. Estamos mais poderosos do que alguma vez estivemos, mas não fazemos ideia do que fazer com esse poder. Mas pior ainda é que os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca." 
Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

Esta História Breve da Humanidade, escrita por um competente historiador, investigador e professor de História do Mundo, na Universidade Hebraica de Jerusalém, surpreende, prende, ensina.
É um livro para aprender e aprender.
Quando se lê, entende e aprende, é muito gratificante!

Sempre que uma amiga especial nos aconselha determinado livro, não hesitemos… 
Obrigada!

SAPIENS” – Historia Breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari
Tradução de Rita Carvalho e Guerra
ELSINORE,20/20 Editora, 2017
504 págs.

24 outubro, 2017

Poema de... José Régio


IMPROVISO CORRIGIDO
Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão…
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo,
Não nas que entoo a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois.
Não nas que entrego a músicas, miragens,
Alegorias, fábulas, mentiras,
Cadências, símbolos, imagens,
Ecos da minha e mil milhões de liras.
Se minto?... Minto! É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo,
E a mim me visto de inocência, e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!



Retirei este poema do livro "Cântico negro", colectânea da poesia de José Régio.
O belíssimo poema com o mesmo nome foi postado no roldeleituras , em Maio de 2015.

José Régio, poeta português (1901-69)
Foto da net.

17 outubro, 2017

Quando se trata de pedir favores a familiares...


Quando se trata de pedir favores a familiares sou tomado de um pudor paralisante. A família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações. Esforço-me por manter as relações no plano da cortesia ou da intimidade mais intuída do que praticada. No fundo, gosto de estar em família por períodos breves. Estas aproximações – para esclarecer uma dúvida, pedir um carro para as mudanças ou uma toalha de mesa para o Natal – causam-me um certo desconforto. Prefiro deixar a família a pairar com a sua autoridade tácita, lá bem no alto, onde pouco interfere com o meu quotidiano. Cada qual na sua casa segundo os seus ritmos: isso é que está certo.”


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Hoje estarás comigo no paraíso”, Ed. Quetzal, 2017
Foto da net.

13 outubro, 2017

"Nação crioula" - José Eduardo Agualusa

A vida de um escravo é uma casa com muitas janelas e nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela.
Finalmente li José Eduardo Agualusa!
E comecei bem, “Nação crioula” (1997) é um romance inteligente, comovente, e bem escrito.
Conta, com humor e sensibilidade, a intensa, secreta (divulgar é sempre profanar) e atribulada história de amor de Carlos Fradique Mendes (aventureiro português) e Ana Olímpia Vaz de Caminha (jovem angolana nascida escrava, viúva do abastado Victorino Vaz de Caminha, bela, inteligente, rica, poderosa e respeitada), ao mesmo tempo que aborda temáticas sérias: Portugal nos finais do século XIX; a sociedade colonial angolana e brasileira; o tráfico negreiro; o movimento abolicionista.
O autor foi buscar o protagonista ao livro de Eça de Queirós ”Correspondência de Fradique Mendes” (1900), uma compilação de cartas trocadas entre Eça e o amigo-ficcionado Fradique.
“Nação crioula” também é um entrelaçado de cartas. Vinte e seis. Poucas recebidas por Fradique Mendes, muitas enviadas por ele para madame de Jouarre (a madrinha); Ana Olímpia (a amada); José Maria (o amigo Eça). Cartas escritas entre 1868 e 1900, Luanda, Lisboa, Rio de Janeiro e Paris.
A primeira, de Maio de 1868, começa assim:
"Minha querida madrinha,
Desembarquei ontem em Luanda às costas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou um sentimento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo…"
Nos anos seguintes, Fradique Mendes diverte-se, trata de negócios, viaja, "namora" a mulher amada. 
Em outubro de 1876, Ana Olímpia é de novo escrava, propriedade de familiares do marido falecido. Depois de muitas peripécias Fradique consegue libertá-la e foge com ela para o Brasil no “Nação Crioula” (...) provavelmente o último navio negreiro da História.
Em Junho de 1877 Fradique Mendes escreve a Eça e Queirós:
"Meu querido José Maria?
Estou agora no Rio de Janeiro, e embarco segunda-feira para Lisboa, onde tenciono permanecer um mês ou dois antes de seguir para Paris e depois para Londres. Os motivos desta minha peregrinação, sendo os óbvios (tenho negócios a tratar e amigos a rever), são também outros e menos públicos: liguei-me recentemente a uma sociedade secreta, antiescravista (chamamos-lhe a Sociedade do Cupim!), e parto com o objectivo de recolher apoios para esta causa entre os governos e instituições da velha Europa…"
Em Outubro de 1878, comunica à madrinha que é pai:
"Quem lhe escreve esta carta não é mais o ocioso e irresponsável aventureiro que V. viu crescer, vestindo-se nos melhores alfaiates de Paris para ocultar a miserável nudez da alma, sentindo o mundo com sentimentos alheios, e cujo único projecto de vida era, simplesmente, deixar-se viver. Sou outro! Sou, desde há dois meses, pai de uma belíssima menina…"
Fradique Mendes morre em Paris, no inverno de 1988. Em Outubro ainda escreve ao amigo José Maria (penúltima carta do livro):
"O que é que nós colonizámos? O Brasil, dir-me-ás tu. Nem isso. Colonizámos o Brasil com os escravos que fomos buscar a África. Fizemos filhos com eles, e depois o Brasil colonizou-se a si próprio. Ao longo de quatro demorados séculos construímos um império, vastíssimo, é certo, mas infelizmente imaginário…"
A vigésima-sexta carta, de Agosto de 1900, é de Ana Olímpia para Eça de Queirós. É uma carta de desabafo que acompanha a correspondência de Fradique Mendes pedida pelo escritor para publicação em livro, “uma forma de homenagear o português mais interessante do século XIX”. Nesse mesmo ano, o livro chega (mesmo) às livrarias…

Se quer saber mais sobre os dois livros… vai ter de os ler. Este, recomendo-o aos que gostam de romance, aventura, histórias do quotidiano colonial português (o de Luanda é tragicamente hilariante), História.
Eu vou continuar a ler Agualusa. Isso é ponto assente.
Despeço-me, que se faz tarde…

Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2017
165 págs.

10 outubro, 2017

Kazuo Ishiguro - Prémio Nobel da Literatura, 2017


Finalmente, a Academia Sueca acertou na atribuição do Nobel da Literatura ao premiar este ano um verdadeiro escritor, no caso, um romancista brilhante.
Isto porque nos últimos anos a “coisa” não tem sido famosa…
Kazuo Ihiguro, nascido em Nagasáqui em 1954 e a viver em Inglaterra desde 1960, é merecedor do prémio, sem quaisquer dúvidas.
A sua obra, não sendo vasta é poderosa: romances; contos; guiões para televisão; letras para canções.
Foco-me nos romances, sete, todos editados em Portugal:
- “As colinas de Nagasáqui”, 1982.
- “Um artista do mundo transitório”, 1986.
- “Os despojos do dia”, 1989 (adaptado ao cinema em 1993, por James Ivory). 
- “Os inconsolados”, 1995. 
- “Quando éramos órfãos”, 2000. 
- “Nunca me deixes”, 2005 (adaptado ao cinema em 2010, por Mark Romanek).
- “O gigante enterrado”, 2015
Dos sete romances eu já li quatro.
Desses quatro postei dois.
Então, se quiser postá-los a todos vou ter de reler dois, e ler três.
Contabilidade feita, vou “correr” as livrarias à procura dos romances que me faltam, antes que esgotem. Habitual após a atribuição do Nobel.
Pensando melhor, vou deixar a poeira assentar… nos próximos meses as livrarias vão abarrotar de livros do músico rejeitado na adolescência pelas editoras, agora romancista galardoado com o prémio maior da Literatura. Merecido!
As vossas vidas estão traçadas, escreveu Kazuo no romance “Nunca me deixes”. A vida dele estava, oh se estava!
Recomendo a todos que leiam Kazuo Ishiguro, um assombroso contador de histórias estranhas, sensíveis, belíssimas.

Eu, uma vez mais “chorei baba e ranho” (brincadeirinha!!) por não ver premiado o meu escritor preferido: Philip Roth.
Roth, repito o pedido do ano passado: não morras, please!

03 outubro, 2017

Para uma amiga especial...



Não importa se a estação do ano muda...
Se o século vira, se o milénio é outro.
Se a idade aumenta...

Conserva a vontade de viver,
Não se chega a parte alguma sem ela.


(Versos de Fernando Pessoa)

Foto da net

29 setembro, 2017

" A violação do amor" - Manuel de Sousa Falcão


A violação do amor” (Editora Propagare, 2016), da autoria de Manuel de Sousa Falcão, reúne mais de 100 poemas - “textos confessionais”, diz o poeta - escritos entre 2009 e 2016.
São poemas para ler devagar, pensar, reflectir e compartilhar com aqueles que amamos, ou gostamos.
Reproduzo dois dos meus favoritos.

Fico a aguardar o próximo livro, senhor professor, poeta, pintor.
Sucesso!

SORRI
Sorri
Mesmo que não te apeteça
Conversa sem que te meça
Fala da pele e nunca mais do que isso
Diz de ti apenas a superfície
Diz de texturas e não
De ligaduras de nervuras de vidas duras
De doenças sem curas.
Esconde-te cobre-te recolhe-te
É que cansei-me de ti
Algum dia o passado irrompeu
E és o que eras
Não te salvei não te mudei
Como o Paraíso por perdido
Deu lugar ao Vale de Lágrimas
E tarda a redenção
Ou não vem
Eu não quero morar aqui
Por tudo o que vi o que vivi o que senti

A NOITE
Uma noite
Faço o mesmo percurso
Do mesmo modo
A ouvir os passos
Escutar (esses) ruídos
Da hora tardia
E entrando em mim, 
Compreendendo-me.
Não me desculpo
Talvez chore
(Alguma memória
Chamará um
Sorriso breve
Uma saudade breve)
O mesmo percurso
O cansaço extremo,
Impede-me de pensar o
Regresso.

26 setembro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


Há um provérbio norte-americano que diz «Ser velho não é divertido». É uma verdade. Ser velho é ter de começar do zero a qualquer momento, e fazê-lo muitas vezes, constrangido a reaprender coisas básicas que inclusive se ensinaram aos outros a vida toda. Coisas simples (e inacreditavelmente complexas como andar, organizar o seu espaço, cuidar da alimentação, sair de casa, comunicar. Um dia acorda-se e nada disse é óbvio como antes era. Ser velho é fazer o que se fazia, mas muito mais devagar, segmentando por etapas, doseando o esforço desmesurado que atividades mínimas agora obrigam. Ser velho é desistir muitas vezes, tombando de uma angústia que as palavras já não exprimem; é as lágrimas correrem dos olhos, não por pieguice, mas porque nenhuma esperança as sustém; e, ao mesmo tempo, ter a teimosia inexplicável de recomeçar quando já não parece possível. Ser velho é, no extremo da fragilidade, mostrar que se tem sete vidas. Ser velho é aceitar o presente, sentindo rondar a imprevisibilidade muito perto, e sabiamente rir-se disso. Ser velho é fazer mais com menos: saber que só se pode contar com a força de uma das mãos ou com o apoio de um dos lados, e mesmo assim insistir e continuar. Ser velho é compreender o valor das migalhas, que foram sempre o nosso grande alimento sem que nos déssemos conta. Ser velho é lutar para estabelecer uma conversa com um quinto do vocabulário, ainda assim entrecortada por hesitações e esquecimentos, mas com os olhos a falarem cinquenta vezes mais, para quem os souber ouvir. Ser velho é sentir-se transferido para o interior de uma casa alheia e grande, desejando unicamente não se perder. Ser velho é não contar com ninguém a certas horas – horas longas que parecem não ter fim – procurando manter vivo, dentro dessa total incerteza, o inapagável fio do amor.

Sim, o provérbio tem razão. Mas há uma coisa que ele não diz: que ser velho é também um milagre. Na verdade, torna-se urgente vulgarizar um verbo que os dicionários não trazem e que os velhos conjugam continuamente, o verbo milagrar. (…) Os velhos milagram. Eles são responsáveis pelo incessante prodígio que é a vida.


Excerto da crónica “O verbo milagrar”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 26 Agosto 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

22 setembro, 2017

"Hoje estarás comigo no paraíso" - Bruno Vieira Amaral


Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se debaixo dele a qualquer momento.
No romance de estreia “As primeiras coisas” (2013) Bruno Vieira Amaral desvenda de forma magnífica como se vivia no início dos anos 80 no Bairro Amélia, concelho da Moita, distrito de Setúbal, o problemático bairro onde o escritor cresceu.
O romance, distinguido com diversos prémios, espantou todos pelo perfeito dosear de real com ficção, e pela escrita poderosa.
Agora, neste segundo romance, o escritor pega no homicídio nunca esclarecido do seu primo João Jorge (o Joãozinho Treme, personagem de “As Primeiras Coisas”) e desenha uma investigação do assassínio e usa essa investigação como estratégia de recuperação e construção da sua própria memória: a infância, a família, o bairro e as suas personagens, Angola antes da Independência e os anos que se lhe seguiram, e a figura – ausente - do pai.
João Jorge, solteiro, pintor da construção civil, cidadão português nascido em Novo Redondo, Angola, gozão respeitador, um vadio amigo da família, acabou os seus dias num curral de porcos, brutalmente degolado por um cabo-verdiano. João Jorge veio de Angola aos treze anos e morreu na Baixa da Banheira, Portugal, aos vinte e um.
Trinta anos depois , Bruno Vieira Amaral movido pela curiosidade decide investigar tão brutal crime.
Não são os mortos que clamam por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para que os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas, esclarece o escritor/narrador.
Sem memórias vivas do primo, para reconstituição da sua personalidade, do seu percurso de vida e da derradeira noite, Bruno Vieira Amaral (sete anos aquando do crime) pesquisou arquivos da imprensa da época, consultou arquivos judiciais, explorou o passado da família em Angola, ouviu jornalistas, familiares, vizinhos e amigos. Depois, “agitou” tudo e escreveu uma comovente e nostálgica história, bem urdida e bem contada, feita com dados da investigação, segredos familiares, esquecimentos convenientes, equívocos propositados, verdades escondidas, silêncios, recordações do quotidiano no bairro, revelações drásticas sobre um Portugal com fome, desemprego, salários em atraso.
Numa mistura perfeita de ficção e realidade, de passado e presente, aqui e ali o escritor/narrador desvenda o seu quotidiano e as dificuldades e esmorecimentos que sentiu  durante  a escrita da história.
Por vezes a dificuldade de escrever é apenas isso, uma tarefa, uma actividade profana, repetitiva, banal, afastada das zonas tenebrosas da existência, das humilhações, dos desejos proibidos, das vinganças imaginadas. Então, prefiro afastar-me da escrita e montar prateleiras, furar paredes, introduzir buchas, apertar parafusos…
Interessante é ver também citados romances  de Gabriel Garcia Márquez, Cormac McCarthy, W.G. Sebald,, Mario Vargas Llosa, Javier Cerca, Julian Barnes, entre outros, que o inspiraram e motivaram.
Tudo perfeito!
Na noite em que João Jorge foi assassinado não choveu. Nem na manhã seguinte. Era terça-feira de Carnaval, céu limpo e frio…
Fico por aqui.
Leia para saber quem foi, como viveu e porque foi o João Jorge morto como um porco, com a faca para os abrir... 
Hoje estarás comigo no paraíso (Evangelho segundo Lucas, 23:39-43) é interessante mas... demasiado longo. Bruno Amaral Vieira, senhor de uma escrita cristalina, viciante e inteligente (tanto deve ter lido já este "senhor escritor" que herdou do avô o amor pelos livros e pela História), podia ter dito tudo sem se perder em excessivas minúcias.
Eu aconselho a leitura dos seus dois romances. O primeiro é o meu favorito, mas com este quase gastei um lápis... A sublinhar, claro!

ONDE É QUE A HISTÓRIA DA NOSSA FAMÍLIA contamina a nossa história individual?
Pense nisto!

Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral
Ed. Quetzal, 2017
363 págs.

15 setembro, 2017

Irrita-me a felicidade de todos estes homens ...


Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem rico com dor de dentes de vez em quando, mas muita aspirina também – a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) aos incidentes que chamam alegria e dor.

Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Pintura de Giuseppe Arcimboldo, pintor italiano (1537-93)

08 setembro, 2017

"A vegetariana" - Han Kang

- Porque é que não comes carne? Ela pousou os pauzinhos e olhou para ele. – Não tens de me dizer, se for difícil para ti.
- Não – responde ela com serenidade. – Não me é difícil. O problema é que acho que não vais compreender. – Tornou a pegar nos pauzinhos e mastigou lentamente alguns rebentos de soja. – É por causa de um sonho que tive.
- Um sonho?
- Tive um sonho… e é por isso que não como carne.
É estranha e comovente a história de Yeong-hye, mulher normal, nem feia nem bonita, de poucas palavras, filha e esposa submissa, que depois de um sonho terrível decide mudar radicalmente a sua vida, impor a sua vontade e enfrentar a conservadora sociedade sul-coreana, o marido que a despreza, os pais e a irmã que a ignoram. Como? Tornando-se vegetariana.
Essa inesperada, incompreensível e assustadora mudança de comportamento tem consequências negativas sobre toda a família e brutais sobre ela própria.
Dividida em três partes, a história começa no presente mas engenhosa e subtilmente recua ao passado dando voz a familiares – marido, cunhado e irmã – que desvendam de forma crua e dura factos da infância e adolescência da protagonista. Preocupa-os a estranha decisão dela? Não! Preocupa-os o que dessa decisão pode “respingar” sobre eles.
Na primeira parte a voz é do abjecto marido:
… sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial. Para dizer a verdade, quando nos conhecemos, nem sequer me senti atraído por ela. No então, embora não tivesse nada de muito atraente, nada tinha também de repulsivo e, por isso, não havia motivo para que não nos casássemos… raramente me pedia alguma coisa e nunca discutia comigo.. .servia-me na perfeição… era a mulher mais trivial do mundo… uma esposa absolutamente comum…
Até um certo dia de fevereiro…
… em que ela, provocadora, deita fora carne, ovos e leite, recusa sair do quarto, deixa de limpar, de cozinhar, de tratar da roupa e recusa o sexo com o marido por o corpo dele lhe cheirar a carne.
Os dias passam, ela definha. Incapaz de a demover o marido fala com a sogra e logo marcam uma reunião de família. Tal não preocupa a "nova" Yeong-hye revoltada, vingativa, fantasista e decidida a tomar o controlo da sua vida. Nem o marido desprezível, nem o pai, um herói da Guerra do Vietname autoritário e agressivo, conseguirão que volte a comer carne. Antes morrer. É assim tão mau morrer?
O que se segue é provocador e desconcertante, mas eu não desvendo para que a sensação de absurdo seja sentida também por si.
(Nota: O hospital confirmará que esta mulher revoltada que começou por querer ser vegetariana, depois um vegetal e por fim uma árvore, não sofre de qualquer doença mental.)

Este romance, feito de histórias bem imaginadas que se encaixam umas nas outras como peças de um puzzle, não é fácil de entender, não!
É tão estranho, tão estranho, que, não sei como, se entranha em nós e a vegetariana Yeong -hye não nos sai da cabeça.
Porquê? Bem... é segredo.

(Ufa! Este foi difícil de digerir! Mas não deixei de comer carne...)

A vegetariana, de Han Kang - Man Booker International Prize 2016
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Ed. D. Quixote, 2016
190 págs.

01 setembro, 2017

Voltei... com um poema!


NONA SINFONIA

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português ((1936-1918)
Foto da net.

02 agosto, 2017

Vou de férias...


... do meu rol de leituras.
Como faço todos os anos, durante o mês de Agosto nada postarei.
Vou aproveitar para ler (a pilha de livros cresceu nos últimos meses) e “espreitar “, com calma, os blogues que sigo e de que ando arredada.

Julho foi um mês complicado. 
Um problema de saúde, grave, da mãe das minhas netas de 11 meses e 6 anos, deixou-me arrasada física e psicologicamente. 
Como se não bastasse, no último dia do Julho mais cinzento dos meus (já muitos) verões, a morte súbita cardíaca atingiu um familiar que habitava junto de nós, ali ao virar da esquina. Saudável e feliz com a vida, partiu deixando familiares e amigos estarrecidos. E eu, continuei a arrasar, perdida numa onda de angústia e desorientação. E medo.
Realmente,  "a vida dói muito mais que a morte" - palavras de Jim Morrison.

Vou aproveitar esta pausa para procurar a ponta do novelo da minha vida. Fernando Pessoa disse que  “a vida é um novelo que alguém emaranhou”  e eu vou tentar desemaranhar o meu.

Até Setembro.
Muitas e excelentes leituras.
Braçadas de flores para os meus seguidores e todos aqueles que, simplesmente, passam por aqui.

(No meio de tanta agitação consegui ler "A Vegetariana", romance de Han Kang.
Demasiado estranho e perturbador, recomendo que o leiam lá para o outono... ou inverno...
Verão é para degustar, brindar e foliar.)

31 julho, 2017

Carrego gostosamente com o lastro do passado...


Carrego gostosamente com o lastro do passado, albergo-o e permito que me acompanhe para todo o lado. A mim o que me incomoda amiúde é o presente, aquela sua lixada mania de se intrometer em tudo. O passado manda-se para a floresta do esquecimento e ali permanece, mesmo à custa de se converter em alimária. O presente, em contrapartida, espera-nos ao pé da floresta, a meio do caminho, e tem um machado na mão.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

28 julho, 2017

Sempre que vejo sangue, desmaio...


Sempre que vejo sangue, desmaio. Sou fraca a esse ponto, não suporto nem um beliscão. Incomoda-me essa debilidade, mas não consigo ultrapassá-la por mais que me esforce. Quando me têm de tirar sangue para uma análise, experimento todo o tipo de truques: olhar para outro lado, fechar os olhos, contar até cem; inclusivamente uma vez tentei o contrário, olhá-lo fixamente, concentrar-me no sangue e pensar que era água, torná-lo transparente com a força do meu olhar.

Aguento apenas uns segundos antes de sentir aquela frouxidão que nasce nos pés e se instala na boca do estômago, depois os ombros descaem, o pescoço cede, as maçãs do rosto fraquejam-me como cera derretida e, quando o frio chega ao cérebro, já não estou. Falta de luz. Não é desagradável. Pelo contrário, tem qualquer coisa de abençoado, esse abandono, essa interrupção total da consciência. Tomara eu dormir sempre assim, flutuar à deriva nessa paz com todas as amarras cortadas. O desmaio, como o sono, está fora do tempo, numa dimensão própria que parece eterna mesmo que dure apenas uns segundos.”


Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

21 julho, 2017

Os sentimentos que mais doem...



Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas importantes, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juntos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas. (…)
Sei que estes pensamentos da emoção doem com raiva na alma. (…)

Nestas horas de mágoa subtil, torna-se impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é. Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. E tudo um caos de coisas nenhumas.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Painel de azulejos de Almada Negreiros, pintor  português (1893-1970).

14 julho, 2017

"Obra poética" - José Carlos Ary dos Santos


O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos, poeta e declamador português  (1936-84)
(Foto da net)



11 julho, 2017

Quando não consigo dormir...


Quando não consigo dormir, costumo deitar-me de barriga para cima, com os olhos fechados e os braços esticados paralelos ao tronco. Todo o corpo liso e direito, excepto os pés, que apontam para o céu. Então, começando pelo dedo mínimo do pé direito, vou-os mexendo um a um, devagar, muito devagar, e conto-os. Mexo um dedo e conto-o, um; mexo o seguinte, dois, três, quatro. Ao chegar a dez, estou no dedo mínimo do segundo pé. É importante mexê-los todos, um a um, não saltar nenhum dedo, não interromper a contagem. Quando se termina, volta-se a começar em sentido contrário: onze dedos, doze, treze…
Não costuma falhar. Houve alturas em que cheguei a contar mais de cento e cinquenta dedos, mas com firmeza e método, se os contarmos realmente um a um e mexermos de cada vez aquele que é devido, acaba por se conseguir. Vai-nos dando o sopor.

Nunca tomei um comprimido para dormir. Nunca, nem sequer uma valeriana. (…) Nunca um comprimido. Sempre os dedos um a um!”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.


(Experimentei "contar dedos dos pés" na passada semana, quando a minha netinha adormecia e eu teimava em ficar de olhos abertos. Perdida de sono, mas de olhos abertos.

Foi uma semana em grande, aqui em casa com a Madalena. Os papás foram de férias, levaram a Carolina, de seis anos, e deixaram comigo a pequenina de dez meses. Linda, linda, linda!
Foi maravilhoso!
E cansativo? Sim, um pouco; biberons, papas, fraldas e chupetas... não é mole, não! Mas voltaria a fazer tudo, mesmo tudo!
Vivem longe e não são muitas as vezes que estamos juntas. Pena minha!

Acreditem, abraços e beijos babados de netinhas provocam numa avó um turbilhão de emoções.
Mesmo se para dormir tem de contar os dedos dos pés.)

07 julho, 2017

A liberdade é a possibilidade do isolamento...


A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente.
Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que o faz ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela."

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

04 julho, 2017

A arte pertence a toda a gente e a ninguém...


"A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (...) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas. Mas que pessoas, e quem as define?

Escrevia  música para toda a gente e para ninguém. Escrevia música para os que melhor apreciavam a música que ele escrevia, sem olhar à condição social. Escrevia música para os ouvidos que eram capazes de ouvir. E sabia, por isso, que todas as verdadeiras definições de arte são circulares e que todas as definições não verdadeiras de arte lhe atribuem uma função específica.

Havia muito a dizer sobre o silêncio, esse lugar onde as palavras se esgotam e a música começa; e também, onde a música se esgota."


Julian Barnes, escritor inglês (n.1946), in "O ruído do tempo", Ed. Quetzal, 2016
Foto da net.

27 junho, 2017

Dói-me a cabeça...


Dói-me a cabeça.
O meu desejo é morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria, período a período, a mágoa anónima do mundo: aos seus olhos imaginadores de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística.

Dói-me a cabeça porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, seu eu passar as mãos pelos cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem sofrer.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

23 junho, 2017

A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos...



A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos, a mamã deu-me uma resposta científica, com todo o tipo de pormenores: o esperma e o óvulo e a fecundação e o zigoto e o parto e o cordão umbilical e tudo o que se queira. Como deve ser, com toda a naturalidade do mundo: «O teu pai e eu fizemos amor…» Julgo até que a minha imaginação construiu uma representação mental do estranho enigma que me estavam a contar, em que a pilinha do papá encaixava no buraquinho da mamã com uma precisão geométrica e limpa, como encaixam as peças de madeira nos jogos de construção. Mas não era uma imagem de verdade. Não é uma imagem de verdade. (…)
Não é só a imagem de como nos geram que é falsa Também a de como nascemos. Toda aquela humidade embrulhada num choro raivoso, o sangue e os rompimentos, os coágulos espalmados que selam as pálpebras, o frio, a ingravidade perdida e aquela repentina obrigação de sermos, de sermos a sério e sozinhos, todo aquele pântano de células forçadas a juntarem-se em órgãos e crescerem e dividirem-se, que é a sua forma de se multiplicarem, e procurarem uma saída.
Nascer é isso: procurar uma saída, procurá-la às apalpadelas e aos encontrões, cegos pelo sangue. E depois a vida inteira à procura de uma saída que nos tire do atoleiro em que a saída anterior nos meteu, talvez porque não era exactamente uma saída e assim, com a memória entretida, acabamos por acreditar que não nascemos assim, que viemos ao mundo limpos e embrulhados como uma rebuçado, a cheirar a gazes e pomadas, com a pele hidratada de cremes, e não de sangue. É a primeira lenda. Ainda não acabámos de nascer e já estamos a inventar como nascemos. Agrada-nos a ideia de sermos filhos de uma ideia. Queremos ser filhos do amor e somos filhos do sexo. É possível que o amor contenha o sexo, como as nascentes dificilmente perceptíveis contêm rios imensos.”

Enrique de Hériz , escritor espanhol (n. 1964), in “Mentira”, Ed. D. Quixote, 2006
Foto da net.

20 junho, 2017

"Diário do último ano" - Florbela Espanca


A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa: posso partir.
"Diário do último ano" é registo dos últimos dias de vida de Florbela Espanca, «uma virgem prometida à morte», como escreveu Natália Correia no Prefácio.
É um desabafo pessoal, uma confissão, feito em 32 pequenas anotações (apresentadas também na versão do manuscrito original) e um longo poema, escrito por uma alma angustiada:

"Ó Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
À janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...

Ó almas de gangrenas,
Almas 'slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas com ralhos,
Cortantes como gritos!"

Florbela inicia o diário a 11 de Janeiro de 1930,  e logo clarifica para quem o escreve e porque o escreve:
- Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Encerra-o a 2 de Dezembro, com uma única frase:
- E não haver gestos novos nem palavras novas!
Morre a 8 do mesmo mês, dia do seu 36º aniversário. A terceira tentativa de suicídio (tentado em Outubro e Novembro) foi fatal.
De saúde frágil, com doença mental diagnosticada, depois da morte do irmão em 1927, Florbela entra em depressão e clama pela morte:
Morte, minha Senhora Dona Morte
Tão bom que deve ser o teu abraço!

Eis algumas anotações:
"FEVEREIRO
19 – Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que me importa o desalento da vida se há a morte?
ABRIL
20 –  Porque me não esqueço eu de viver… para viver?
28 – Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem pra nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que e inclina e diz que sim a todos os ventos.
AGOSTO
2 – Está escrito que hei-de ser sempre a mesma eterna isolada… Porquê?
OUTUBRO
8 – (…) só na alma é que a lama se não apaga; aquela com que nos salpicam, sai com água.
NOVEMBRO
15 – Não, não e não!
20 – A morte definitiva ou a morte transfigurada?
Mas que importa o que está para além?
Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!"
Sinto-me só. Quantas coisas lindas e tristes eu diria agora a Alguém que não existe!

Este livro pequenino é triste mas belíssimo!
Confirme!

Diário do último ano, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
70 págs.

16 junho, 2017

Os pobres não gritam...


"Os pobres não gritam. A morte faz parte do seu lúgubre cortejo de amigos, tem um cantinho no seu leito e um lugar à sua mesa: quando chega, pode levar tudo; quando transpõe a porta, aberta de par em par, com a sua presa, não vê à sua volta, a escoltar-lhe o fatídico vulto negro, senão cabeças curvadas num gesto de resignação, braços caídos, braços de quem deu tudo, de quem não tem mais nada para dar. A dor dos pobre é resignada e calma; traz às vezes consigo as aparências da revolta mas, no fundo, é cheia de um imenso, dum infinito desapego de tudo. Os pobres vêm ao mundo já sem nada; o pouco que a vida lhes deixa é emprestado. Que lhes hão-de tirar que seja deles?! Aos pobres toda a gente chama desgraçados."

Florbela Espanca, poetisa portuguesa (1894-1930), in “As máscaras do destino - Conto A paixão de Manuel Garcia”, Bertrand, 1981
Pintura "Interior de Pobres" (1921), do pintor e escultor brasileiro Lasar Segal (1891-1957)

13 junho, 2017

"A valsa do adeus" - Milan Kundera


Cada homem devia receber uma dose de veneno no dia da sua maioridade. Não para o incitar ao suicídio, mas, pelo contrário, para o fazer viver com mais segurança e mais serenidade. Viver sabendo-se senhor da sua vida e da sua morte.
Em “ Valsa do adeus” (1972) oito corações acelerados, nem sempre em sintonia perfeita, buscam a felicidade numa pequena estância termal isolada, antiquada, decadente, famosa pelos águas que tratam o coração dos homens e a esterilidade das mulheres.
Num contínuo de encontros e desencontros, homens e mulheres rodopiam ao ritmo de uma valsa-intriga, sabiamente orquestrada por Kundera com muita ironia e humor.
Toda a acção decorre no espaço de cinco dias - segunda a sexta-feira dum início de Outono.
A narrativa, rápida, inteligente, envolvente, retrata o comportamento de pessoas normais apanhadas em situações imprevisíveis. Não há verdades absolutas, antes mentiras desesperadas. E muitas contradições.
Ruzena, uma jovem e bela enfermeira da casa de banhos, e Klima, um célebre músico de jazz, estão no centro duma enorme confusão amorosa, “temperada” com pormenores hilariantes.
Ruzena e Klima conheceram-se na noite em que o jovem e charmoso trompetista actuou na estância termal. Dormiram juntos. Não voltaram a ver-se.
Dois meses depois (segunda-feira), ela liga-lhe e diz-lhe que está grávida. E ele fica paralisado de terror.
Será mesmo o pai da criança? Estiveram juntos apenas uma vez. Tem de convencê-la a abortar. Como? Com promessas e mentiras.
Klima é casado com Kamila, uma bela mulher de saúde frágil, que renunciou à carreira de cantora.
Ele ama-a infinitamente. Sente o coração despedaçar-se quando a vê triste. “Perde-se” em casos de infidelidade, mas volta para ela sempre mais apaixonado. Era capaz de dar a vida por ela.
Já Kamila ama o marido doentiamente. Torturada pelo ciúme não acredita em nada do que ele lhe diz. Tem medo de todas as mulheres que gravitam à volta dele. Silencia a sua desconfiança para não o enfurecer. Aprendeu a “jogar” com a tristeza para o atrair.
Porque não procura ela algum conforto no mundo dos homens?
Porque o ciúme possui o poder espantoso de iluminar de raios de luz intensos o ser único, mantendo a multidão dos demais homens numa obscuridade total.
(É hilariante a relação de amor/ódio deste casal. Já agora, fique a saber que , lá para quinta-feira, Kamila vai mudar …)
Às 9.00 horas da manhã do dia seguinte, Klima chega a à estância termal.
Antes de falar com a enfermeira, encontra-se com o doutor Skreta, director dos serviços de ginecologia. Tenta convencê-lo de que aquela criança não pode ser sua, que duvida até que Ruzena esteja realmente grávida.
- Examinei-a ontem. Está grávida. – disse o médico.
É um Klima apavorado e angustiado que se senta à frente de Ruzena.
Ela diz que nunca aceitará abortar. Não nunca… Ele,  perde o uso da fala… mas não da capacidade inventiva e pouco depois é uma Ruzena empolgada que confidencia às colegas: - Ele disse que me amava e que ia casar comigo… mas não quer que eu tenha já um filho.
Mas esta valsa não é só dançada por Ruzena e Klima. Outros dançarinos rodopiam no salão: Bertlef (o rendeiro americano rico louco por mulheres); Olga (a mais antiga utente da estância termal), Frantisek (o tresloucado namorado de Ruzena, que insiste que o filho é seu); Jakub (o decepcionado militante do movimento politico comunista, vítima das depurações, que pretende abandonar definitivamente o país e está na estância termal para se despedir da amiga e protegida Olga, e devolver ao doutor Skreta o comprimido de veneno que em tempos este lhe havia preparado) e Kamila (que também aparecerá por lá).
Jakub, para muitos dançarinos um mero desconhecido, vai interferir no ritmo desta valsa.
Ruzena cruza-se  com ele num café. Desagrada-lhe o seu rosto. Acha-o irónico e ela detesta a ironia. O olhar dele assusta-a. Sai apressada e esquece sobre a mesa um tubo com comprimidos. Jakub apanha-o.
Na quinta-feira o trompetista  volta a tocar na estância. A mulher, sem que ele saiba, aparece de surpresa e assiste ao concerto. Acabam por dormir na estância.
No dia seguinte, ele acorda e sai apressado do quarto. Tem de falar urgentemente com Ruzena.
Entretanto, na sala de banhos Frantisek e Ruzena discutem violentamente à frente das utentes.
Kamila, enfurecida vai à procura do marido. Num corredor encontra Jakub. Caminham lado a lado e ele fala, fala, fala. Separam-se. 
Kamila não esquece as palavras daquele desconhecido. Nem o seu rosto. Como ele, também ela vivia na cegueira. Via apenas um único ser, iluminado pelo farol violento do ciúme. Depois daquele encontro começa a sentir-se segura de si e mais bela. O marido deixa de ser o único homem do mundo. O eventual fim do seu casamento, já não lhe inspira nem angústia nem medo. 
O que lhe disse Jakub? Eu sei, mas não digo.
O ritmo desta valsa acelera e o pior acontece quando um comprimido azul pálido mata um dançarino. 
Assassínio? Suicídio? Acidente?

Este romance aborda questões sérias de uma forma deliciosamente divertida.
(Qual foi o dançarino que morreu? Ora, ora, se eu revelar perde a graça!)
Leia!

A valsa do adeus, de Milan Kundera
Tradução de Miguel Serras Pereira
D. Quixote, 1989
210 págs.

06 junho, 2017

A vida é uma viagem experimental...


A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e, como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito. (…)

Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de angustiado, à beira das lágrimas – não de lágrimas que se choram, mas que se reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível.
Tanto tenho vivido sem ter vivido! Tanto tenho pensado sem ter pensado! Pesam sobre mim mundos de violências paradas, de aventuras tidas sem movimento. Estou farto do que nunca tive nem terei, tediento de deuses por existir. Trago comigo todas as feridas de batalhas que evitei. Meu corpo muscular está moído do esforço que nem pensei em fazer.
Baço, mudo, nulo… “

Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
Desenho de Vincent van Gogh, pintor holandês (1853-90)

30 maio, 2017

"As máscaras do destino" - Florbela Espanca


Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco. Mas eu não queria, não queria que o meu morto morresse comigo, não queria! E escrevi estas páginas…
É de contos este livro de Florbela Espanca, publicado postumamente em 1931, um ano após o suicídio da poetisa.
Contos que ela escreveu em homenagem ao irmão Apeles Espanca, falecido tragicamente em 1927, quando o avião que pilotava se despenhou nas águas do Tejo.
Agustina Bessa-Luís assina o excelente Prefácio: “A vida de Florbela não foi longa. Mas pode dizer-se que é breve uma vida infeliz, em que os minutos são desertos de agrado pelo mundo? Todos os contos de Florbela descrevem esse deserto moroso, onde sopra um vento açulador e triste… Florbela foi infeliz com razões para a felicidade.”
Segue-se a dedicatória ao irmão: “Este livro é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante…”
E depois, alinham-se oito pequenos, belos, tristes, estranhos contos, feitos de palavras choradas por uma mulher frágil, devastada de dor e saudade, incapaz de lidar com a perda do irmão amado. 
O Aviador
"O que anda sobre o rio? Outra gaivota? Outra vela?
É um homem que tem asas! (…) O homem está contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sente-se um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe da terra onde as tem presas um derradeiro fio de oiro… e cai na eternidade…”
A Morta
“Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura dumas pálpebras que se fechassem (…) a mão do noivo empurrava a porta do jazigo. (…)
O vivo e a morta falavam, e o que eles diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os ouros mortos (…)
Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra e outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. (…)
Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas (…) ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho… foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.
E a Morta lá foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada – para que se há-de fechar a porta aos mortos? – e saiu… e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar.”
Os Mortos não voltam
“… os mortos não voltam e é melhor que assim seja… Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?”
O resto é perfume
A paixão de Manuel Garcia
O Inventor
As Orações de Soror Maria da Pureza
“Mariazinha lembrava-se muito bem. Todas as noites daquele ano em que não houvera Inverno, o namorado, encostado às grades, rezara a litania da sua puríssima paixão.
Mas um dia vieram dizer-lhe que ele tinha morrido. Morreu… pronto! Morreu. Foi só isso, Mariazinha. (…) Mariazinha não percebeu nem tão-pouco disse nada. Encerrada em si mesma como um cofre selado, foi um túmulo fechado e mudo, onde as revoltas e os gritos, as censuras e as carícias iam despedaçar-se em vão. (…) Passaram dias, meses, passaram dois anos (…) continuava a ir à grade onde fiava horas e horas a sorrir, de olhos baixo, com as mãos a tremer, num enleio de amor que não era deste mundo.”
O Sobrenatural

Comprei este livro em 1982. Li-o, guardei-o, emprestei-o, dei-o por perdido e agora recuperei-o.
Apesar de me ser entregue com a maioria das folhas soltas, relê-lo foi estupendo!
As palavras são túmulos…
… mas não nos tiram o sono.
Acreditem!

As máscaras do destino, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
181 págs.