21 fevereiro, 2017

Recordando... Florbela Espanca


DESEJOS VÃOS
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não em sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue e agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!

Se soubessem como eu sou hipócrita! Que horror todos teriam de mim!, Florbela Espanca (1894-1930)

17 fevereiro, 2017

Como apreciar uma boa chávena de chá...


"Temos de estar totalmente despertos no presente para apreciar uma boa chávena de chá. Apenas com a consciência no presente, as nossas mãos podem sentir o agradável calor da chávena. Apenas no presente podemos apreciar o aroma, sentir a doçura e saborear a delicadeza. Se estamos a ruminar sobre o passado ou preocupados com o futuro, perderemos por completo a experiência de apreciar a chávena de chá. Olharemos para a chávena de chá, e o chá terá já terminado.
A vida é assim. Se não estamos totalmente no presente, quando olhamos à nossa volta este terá desaparecido. Teremos perdido a sensação, o aroma, a delicadeza e a beleza da vida. Parecerá ter passado a correr por nós.
O passado terminou. Aprendamos com ele e deixemo-lo ir. O futuro ainda não está aqui. Planeemos, sim, mas não gastemos o tempo a preocuparmo-nos com ele. A preocupação é uma perda de tempo. Quando paramos de ruminar sobre o que já aconteceu, quando paramos de nos preocuparmos com o que poderá nunca vir a acontecer, então estaremos no momento presente. Só então começaremos a experimentar a alegria de viver."

Thich Nhat Hanh, monge e filósofo budista vietnamita, citado por Brian L. Weiss, em “Só o amor é real”, Ed. Pergaminho, 1999

(Pintura de Mary Cassat, pintora norte-americana (1844-1926))

14 fevereiro, 2017

Vamos namorar?!


Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!
Venho só quvê pâ dizê ó Bébéziho que gotei muito da catinha d’ella. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vae a Belem porque, como não sabia s’havia carros, combinei té aqui ás seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sahe d’aqui pelas cinco e meia.
Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos
Fernando
(carta de Fernando Pessoa para a Senhora Dona Ophélia Queiroz)

Faça como o poeta e escreva (pelo menos hoje) uma carta de amor. É fácil!
Coloque a folha em branco à sua frente, segure na caneta, abra o coração e solte a imaginação.
Opte pela simplicidade. Frases rebuscadas nem sempre transmitem o que se pretende.
Brinque com as palavras. Carinho, amor, paixão, beijo, abraço… são pétalas de flores coloridas e perfumadas.

Fazer declarações de amor também é fácil. É só escolher as palavras e o tom de voz, e já está!
Se não sabe o que dizer, olhe o outro nos olhos e deixe que o silêncio fale por si. Cuidado, os olhos são as janelas da alma. Dizem tudo, mostram tudo.

Quando o assunto é amor, nunca esqueça: diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade!

Vamos namorar?
Bora lá!
(Amor, escreve-me uma carta de amor…, um bilhetinho só…)

Foto da net.

10 fevereiro, 2017

"A vida é breve" - Jostein Gaarder


Abraça-me, a vida é muito breve e ninguém sabe se existe uma eternidade para as nossas almas frágeis, talvez só tenhamos esta vida.
Em “A vida é breve” Jostein Gaarder retrata - doseando sabiamente realidade e ficção - a vida e obra de Aurélio Agostinho (Aurelius Augustinus), filósofo, escritor, doutor da Igreja, conhecido por Santo Agostinho.
A inspiração terá surgido após encontrar uma carta redigida por uma mulher e endereçada a Aurélio Agostinho, no interior duma caixa que comprou na feira da ladra de San Telmo, em Buenos Aires.
Eu conhecia bem a biografia de Agostinho. Nenhuma outra figura mostra com tanta clareza a profunda mudança cultural que teve lugar na transição da antiga cultura greco-romana para a cultura cristã (…) As suas confissões proporcionam uma visão única do agitado século IV, assim como dos seus próprios conflitos espirituais, relacionados com a fé e a dúvida. (…) poderia esta carta ser daquela mulher que fora a concubina de Agostinho durante anos, da mulher que ele próprio conta ter tido que deixar por ter escolhido abster-se para o resto da vida de todo o amor sensual?
Se não era passou a ser e logo Jostein Gaarder deu nome e voz à mulher que Aurélio Agostinho amava quando decidiu afastar-se do amor humano para se concentrar na salvação da própria alma. Mulher que não entende como pode um princípio filosófico separar duas pessoas que se amam e na carta o crítica  com ironia e desprezo.
FLÓRIA EMÍLIA SAÚDA AURÉLIO AGOSTINHO, BISPO DE HIPONA
Como é estranho ter de saudar-te nestes termos! Há muito, muito tempo, teria escrito apenas «para o meu pequeno e divertido Aurélio». Mas passaram já mais de dez anos desde a última vez que me abraçaste e, entretanto, muitas coisas mudaram. (…)
Procedeste assim porque começavas a sentir desprezo pelo amor carnal entre homem e mulher…. Achaste que eu te prendia ao mundo dos sentidos e que não tinhas paz nem tranquilidade para te concentrares na salvação da tua alma (…)
Mas que traição, Aurélio, que traição! Não, eu não creio num Deus que exige sacrifícios humanos. Não creio num Deus que destrói a vida de uma mulher para salvar a alma de um homem. (…)
E havia um filho. E Deus é minha testemunha: assim como eu era a mãe de Adeodato, também tu eras o seu pai verdadeiro. (…)
A vida é breve, demasiado breve. Talvez vivamos esta única vez, aqui e agora. (…)
Que Deus do Nazareno te perdoe por toda a ternura e todo o amor que agora rejeitas.
Estou em Cartago, sentada debaixo a nossa figueira, que, pela terceira vez, floresce sem dar fruto.
Eu te saúdo!

E mais não desvendo sobre esta belíssima história de amor dorido.
Ficção ou realidade, essa celeuma não me interessa nada.
Esta vida é tão breve! Não podemos ter a veleidade de emitir qualquer condenação sobre o amor.

A vida é breve, de Jostein Gaarder
Tradução de Maria Luísa Ringstad
Ed. Presença, 1998
116 págs.

07 fevereiro, 2017

23º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


255-(18-5-1930)
“Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada madrugada, uma revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.”

256-(12-6-1930)
“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanos, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida."

Leia (tudo) e… deslumbre-se!



03 fevereiro, 2017

Vale a pena ler… Gérard Depardieu


Tem uma filmografia extensa. Participou em pelo menos 200 filmes. Quais são os que contam verdadeiramente?
Os filmes não me interessam. Não sei responder-lhe. É verdade. Estou-me nas tintas.
Lamenta alguma coisa que tenha ou não tenha feito no passado?
Não, até ao momento não tenho tempo sequer de pensar nisso. De facto, e para falar a sério, não acho que se deva lamentar nada. Passamos sempre ao lado de certas coisas mas, a partir do momento em que fazem parte do passado, mesmo que saibamos o que fizemos de errado ou que negligenciámos, só temos a hipótese de fazer um exame de consciência.
(…)
É um homem livre?
Tento ser.
E a solidão não acompanha a liberdade?
A solidão é uma chatice mas existe a meditação. De resto, a solidão só existe nas cidades. Existe quando há todo aquele movimento à nossa volta e nos sentimos perdidos. Quando há demasiado barulho e nós nos tornamos surdos, aí podemos experimentar a solidão. Mas no espaço, quando atravessamos o deserto, quando vamos à Mongólia, mesmo no Alentejo ou em Faro, não a sentimos. Quando olhamos para o mar de Portugal e vemos aquela espécie de horizonte que nos agarra, não conseguimos desligar-nos da história de todos aqueles que partiram. É como ir à Lua, viajar no espaço, ir a Marte, não sei. São coisas que foram abstratas num determinado momento, quando a Igreja dizia que não se podia ir para ocidente porque se cairia nos abismos, quando as pessoas que sabiam que a Terra era redonda e girava à volta do Sol, como Galileu, eram queimadas vivas. É que o desconhecido mete medo. Por trás do desconhecido se calhar há outros fascínios. Não podemos ouvir o que o nosso pai ou a nossa mãe nos diziam, só se for para não os magoarmos. O que é preciso é termos a nossa própria ideia sobre as coisas.
(…)
Gostaria de ter vivido noutra época?
Não, esta serve-me porque vivo noutra época mesmo nesta época.

Frases soltas:
- Gosto mais de livros do que de imagens. A imagem limita.
- Nascemos numa época em que só se fazem selfies, procuramos a nossa própria imagem.
- Cada época tem os seus defeitos, cada época tem os seus doidos.
- A História repete-se mas é sempre encantadora.
- Tenho medos dos estúpidos… porque os estúpidos podem desestabilizar.
- Temos em nós uma ideia que nos reconforta porque Deus está em nós.
- Não sou religioso, mas acredito no xamã e no xamanismo.
- A cozinha portuguesa é muito boa. A arte da mesa em Portugal é muito boa.

Excerto da entrevista concedida a Alexandra Carita – a propósito da estreia do filme “O Divã de Estaline, realizado por Fanny Ardant e protagonizado pelo actor - publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 28 Janeiro 2017

Vale a pena ler na íntegra.

31 janeiro, 2017

"Versos" - Amália Rodrigues


LÁGRIMA
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar


Sabia que Amália escreveu alguns dos mais belos poemas que cantou?
Eu, não.
Já a ouviu cantar “Lágrima”?
Eu já, muitas vezes.
Pois bem, Amália escreveu e cantou “Lágrima”, um dos mais belos fados que gravou.
Eu soube tudo isto porque Vitor Pavão dos Santos, biógrafo e amigo de Amália, compilou em livro alguns dos poemas escritos pela fadista.
Livro que se lê e ouve. A sério!
Como por magia, lemos “Lágrima” e ouvimos e deslumbramo-nos com a voz única da fadista maior.
E lemos “Estranha forma de vida” e voltamos a ouvi-la.
E lemos...
Experimente!

27 janeiro, 2017

"Quando ela era boa" - Philip Roth

Numa tarde de novembro de 1954, uma semana antes do Dia de Ação de Graças, mesmo ao anoitecer, Willard chegou de carro a Clark’s Hill, estacionou junto à vedação e subiu a pé o carreiro de acesso ao jazigo da família (…) baixou as abas do boné e ali, diante das campas da sua irmã Ginny, e da sua neta Lucy, e dos retângulos reservados para os restantes membros da família, esperou. Começou a nevar.
Estava à espera de quê?
Quando ela era boa” – terceiro romance de Philip Roth, um drama familiar originalmente publicado em 1967 – conta a história comovente, intensa e arrebatadora de uma família humilde, numa cidadezinha provinciana do Centro Oeste americano, na primeira metade do século XX.
Em casa de Willard Carroll e Berta reina a tranquilidade e a felicidade. Felicidade que aumenta quando nasce Myra, a filha de saúde frágil, discreta e tímida, estudante de música e mais tarde professora de piano. Tudo muda quando Mary, já casada com Whitey Nelson, um alcoólico, ignorante, cobarde, ladrão, oportunista, ciumento e violento, volta para casa dos pais com o marido desempregado e a filha de três anos, Lucy Nelson, a protagonista da história. É ela que aos quinze e anos, farta da violência do pai e da passividade da mãe, liga à polícia e fica a vê-lo ser levado para a prisão.
… os meus pais são horríveis. Não sou eu que penso – é a verdade!
Lucy não se livrou de um sermão do avô Willard.
«Nesta casa somos pessoas civilizadas e há certas coisas que não fazemos (…) não somos nenhuma escumalha, e tu tens de te lembrar disso.»
«Cá em casa, Lucy, conversamos com a pessoa. Mostramos-lhe o caminho certo.»
«E se a pessoa não o conhecer?»
«Olha Lucy, não a mandamos para a prisão! A questão é só essa. Está percebido?»
(Anos mais tarde, ela dirá ao avô que ele não podia proteger as pessoas da fealdade da vida passando-lhe por cima uma camada de verniz.)
Depois disso, Lucy, a jovem de bom coração, inteligente, sensível, impiedosa e moralista que fingia que tinha uma família normal, mesmo depois de ter começado a perceber que isso não era verdade, decide regenerar os homens que a rodeiam.
Começa por Roy Bassart, o namorado, dois anos mais velho do que ela mas muito infantil. Ama-o? Casa com ele? Lucy tem dezoito anos e não, não quer casar-se com ele. Ou quer? Talvez, mas só porque está a crescer alguma coisa dentro do seu corpo, e sem a sua autorização.
O resto é para você descobrir… lendo, claro!

O enredo de “Quando ela era boa” é inteligente, os personagens brilhantes, a escrita de  Philip Roth, irrepreensível, mas… 
Se as primeiras 57 páginas emocionam e cativam - conhecemos o avô Willard Carroll, um “homem bom”, filho de pai feroz e ignorante e de mãe trabalhadeira com mentalidade de escrava, que abandona a casa dos pais aos dezoito anos e vai ao encontro do mundo civilizado; que sabe o que quer e o que não quer: não ser rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado... não viver como um selvagem; chega a Liberty Center em 1903, arrenda um quarto, consegue um emprego nos correios, casa com uma rapariga decente, determinada e respeitável, compra uma casa pequenina, tem uma filha, é promovido a sub-chefe, renova a casa, vê a filha casar com um alcoólico violento, recebe-a de coração aberto quando ela necessita de apoio e... nunca esquece Ginny, a irmã internada num lar para deficientes mentais...
... as restantes 302  - relato da vida familiar e estudantil de Lucy, da sua relação com as amigas, do amor por Roy e do ódio pela família dele - estafam de tanta repetição. Tudo podia ser dito em metade das páginas. Penso eu.
Philip Roth jamais me desiludirá mas… desta vez cansou-me. A sério!

Quando ela era boa, de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2016
359 págs.

17 janeiro, 2017

Recordando… Florbela Espanca


A MINHA DOR
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres e agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca ou viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém, ouve… ninguém vê… ninguém…

"No Mundo, passo por todos, vendo alguns; na vida esqueço-me de quase todos, esquecendo-me de mim. Quase tudo me é indiferente.", Florbela Espanca (1894-1930)

Está decidido, em 2017 vou reler a obra poética da grande Florbela Espanca e partilhar no meu rol alguns sonetos que me tocam particularmente.
Pensei nisto depois de ler “Florbela Espanca”, de Agustina Bessa- Luís, em Setembro de 2016.
Já agora, se gosta da obra de Florbela Espanca não deixe de ler esta biografia.

10 janeiro, 2017

Mário Soares (1924-2017)


«Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade».


Tirei daqui: "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa, Ed. Tinta da China, 2014
Foto da net.

06 janeiro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça




"(...)Entre um ano que acaba e um ano que começa, a contas com o tempo que corre fora e dentro de nós, sentindo-nos talvez de forma mais sensível modelados por esse oleiro invisível que é o tempo, percebemos que a nossa vida é uma vida exposta. É impossível não detetar as marcas do tempo em nós: linhas de fragilidade, sombras, estremecimentos, erosões, zonas mais desvitalizadas, desvios. A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se ao manto que Penélope tecia durante o dia e desmanchava durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade de ser. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.(...) Dizer por exemplo, que a vida é marcada pela vulnerabilidade é reconhecer quando ela está exposta à possibilidade de ser ferida. (...) A vulnerabilidade é um acontecimento total. Descobrimos, no entanto, que através dela nos chega também o que nos redime. Só a vulnerabilidade nos eleva à altura do infinito à maneira de uma dança, onde a gravidade é vencida pela graça. E a dança não conhece fronteiras. O seu vocabulário é infinito pois é a emoção humana que ressoa no movimento. Tudo dança, tudo é dança. Os nossos olhos dançam, os nossos corpos rodopiam, a natureza (a nossa e a das coisas) manifesta-se num deslizar que se calhar não vemos.(...) E recorda Marta Graham: "A dança é a linguagem escondida da alma, é uma canção do corpo, um sopro de alegria e de dor. Importa apenas isto: levanta-te e dança". 

Excerto da crónica “Levanta-te e dança”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 30 Dezembro 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

03 janeiro, 2017

22º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

242-(13-4-1930)
"Para o homem vulgar, sentir e viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar e viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.”
“Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.”

249-(cerca de abril de 1930)
“O peso de sentir! O peso de ter de sentir.”

250-(cerca de abril de 1930)
“Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


31 dezembro, 2016

A todos... um EXCELENTE 2017!


“… faz a ti próprio a seguinte pergunta: «Que faria eu hoje, se este fosse o último dia da minha vida?» O truque é ir mesmo ao fundo da questão. Elabora uma lista mental de todas as coisas que farias, das pessoas a quem telefonarias e dos momentos que te dariam prazer. Imagina-te a fazer estas coisas com grande energia. Visualiza como é que tratarias a tua família e os teus amigos. Imagina inclusivamente como tratarias perfeitos desconhecidos, se hoje fosse o teu último dia à face da terra.
... quando vives cada dia como se fosse o último, a tua vida ganha proporções mágicas. Começa a viver cada dia como se fosse o último. A começar já hoje, aprende mais, ri mais e faz o que realmente gostas de fazer. 

Ler durante trinta minutos por dia fará maravilhas por ti. (…)Não leias à toa. Deves ser muito selectivo quanto ao que cultivas no jardim fértil da tua mente.(...) para tirares o máximo partido de um grande livro, tens de estudá-lo e não apenas lê-lo.

Rir é o melhor remédio para a alma. Mesmo que não tenhas vontade, vê-te ao espelho e ri-te durante uns minutinhos. Vais ver que te sentes fantástico. Portanto, começa o teu dia de uma maneira deliciosa. Ri-te…"

FELIZ ANO NOVO
Leiam e riam.
Muito!

Tirei daqui: “O monge que vendeu o seu Ferrari”, de Robin S. Sharma, Ed. Pergaminho, 2004
Foto da net.

23 dezembro, 2016

A todos... um BOM NATAL!


CHOVE. É DIA DE NATAL

Chove. É dia de Natal
Lá para o Norte é melhor:
Há neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Poema de Fernando Pessoa, Portugal (1888-1935)
Pintura de Carlos Reis, Portugal (1037-)

21 dezembro, 2016

Peçam ao Pai Natal...


Um único deslize e a nova vida de um homem vai por água abaixo!
Acabei de ler o primeiro capítulo de “Quando ela era boa”, o romance de Philip Roth este ano publicado em Portugal.
Pouco sei sobre o que se segue mas o que já li… dá para aconselhar que o peçam ao Pai Natal.
A sinopse diz que a figura central da história – um drama familiar, na América provinciana dos primeiros anos do século XX) - é Lucy Nelson, uma jovem boa, sensível, moralista, independente que, depois de ver o pai falhado e alcoólico ir para a prisão, tenta regenerar os homens que a rodeiam, mesmo que isso signifique a sua própria destruição.
Ora bem, Lucy não aparece nas páginas que eu li. Nessas páginas a figura central é o seu avô materno: Willard Carroll, um homem bom, cuja história de vida me prendeu logo no primeiro parágrafo:
“NÃO SER rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado – era esse o sonho da sua vida (...) O que não queria sabia de certeza: viver como um selvagem. Tinha um pai que era um homem feroz e ignorante – caçador furtivo, mais tarde lenhador e, para o fim a vida, guarda nas minas de ferro. A mãe era uma mulher trabalhadeira com mentalidade de escrava por cuja cabeça nunca passava querer ter mais do que aquilo que tinha. (...) Com dezoito anos decidira ir ao encontro do mundo…”
O que se segue é intenso, comovente, arrebatador. Poucas, mas mesmo poucas vezes, eu me emocionei tanto com uma história de vida. E, recordo, li apenas um capítulo.
Se a vida de  Willard Carroll é inesquecível, como será a da neta Lucy?  
Se ela sair ao avô...

Lá para Janeiro voltarei a escrever sobre este romance. Para já, posso “bradar aos céus”: as primeiras 57 páginas deste Philip Roth de 1966 são fascinantes!
Peçam ao Pai Natal...

20 dezembro, 2016

Uma fé... uma missão...


“Para viver, todos têm de ter uma fé. Para viver, todos têm de ter uma missão. Não interessa se é humilde ou elevada, se é heróica ou quotidiana. Ter uma fé e uma missão significa estar inseridos no rio da vida, sentir-se parte dela, com um sentido, uma meta. Significa sentir que se tem uma tarefa útil ao mundo. Seguir a sua própria missão é como percorrer um caminho já traçado. Perdê-lo é como extraviar-se nos campos, pelos precipícios, sem orientação.

No entanto, de vez em quando, afastamo-nos dele. Temos períodos de extravio, de confusão. Perguntamos a nós mesmos o que estamos a fazer no mundo e somos tentados a deixarmo-nos levar pelo desespero. Mas devemos resistir para reencontrarmos o nosso caminho, para o reconhecermos. Devemos ter força de esperar que do escuro surja uma luz, uma esperança. E esta, mais cedo ou mais tarde, chega. Pode ser um encontro inesperado, uma nova oportunidade, alguém que nos pede ajuda. Às vezes é só uma mudança de humor, outras vezes é um sonho. De novo vislumbramos um significado, uma direcção. É como se se acendesse uma pequena chamazinha que o vento pode apagar de repente. Cabe-nos a nós protegê-la.”

Tirei daqui: “Tenham coragem”, de Francesco Alberoni, Bertrand Ed., 1999
Foto da net .

16 dezembro, 2016

"Jóia de família" - Agustina Bessa-Luís

Uma vida de família é uma cidadania em miniatura. Há leis que se aprovam, outras de que se desiste; há festas de presentes e de antepassados; há comemorações, experiências desordenadas, vícios calmos que duram uma vida, violências caladas ou manifestas, classes que se batem entre si, promoções de culturas, ruínas da alma, desejos que só a morte há-de saldar, cobiças que nem a herança resolve, culpas que decidem de mudanças.
Jóia de família” é um bom retrato da sociedade portuguesa dos anos 90. Sociedade que funciona com máscaras ideológicas, ou sexuais, ou psicóticas.
A trama - uma teia de incertezas bem urdida - aborda as mudanças nas relações familiares, o comportamento da burguesia campesina, a delinquência, o crime, a sexualidade, a infidelidade, a droga e a prostituição.
Os personagens, como na maioria dos personagens de Agustina, são bem construídos e convincentes.
António Clara, o protagonista, com dez dias de vida passa de pé descalço a herdeiro de uma fortuna grandiosa. A mãe, Celsa Adelaide, a criada feita parteira, torna-o terceiro filho de Rutinha Albergaria, quando esta desmaiada de cansaço não percebe que deu à luz um menino morto, roxo como um cravo roxo. Celsa, não hesita, esconde o nado morto e deita o seu próprio menino no berço de cambraia. Ninguém nunca suspeitará.
António “nasce” em Salto da Senhora, durante uma visita de Rutinha ao tio Simeão Albergaria, o tio rico que tinha no testamento uma cláusula que tornava seu único herdeiro o neto que nascesse em sua casa. Teria Rutinha conhecimento dessa cláusula? O velho Simeão desconfia mas…vinte anos depois, o filho da criada é um homem rico.
António é criado por governantas. Não se dá bem com os dois irmãos. Os pais estão permanentemente ausentes. Uma escoliose obriga-o a coxear ligeiramente, a abandonar os estudos, a afastar-se do trabalho. Passa a viver suspenso daquela herança como uma aranha do fio da teia.
Aos vinte e cinco anos enamora-se de Vanessa, uma bela mulher de quarenta e dois anos, no alterne desde os treze. Uma mulher ambiciosa, hostil ao mundo e fiel às paixões.
Indignada, Celsa Adelaide procura uma mulher "decente" para o filho. Encontra Camila, uma rapariga simples, acanhada, que nada exige, filha de burgueses remediados, que viam nela a salvação da decadência. Ela era a jóia da família.
O casamento com Camila  não afasta António da amante que, como amiga, passa a frequentar a casa da família. O dinheiro não faz gente.
Como vai Camila lidar com a infidelidade e a indiferença do marido, com o ciúme, com a presença constante de Vanessa?
Hum!
O perspicaz e mordaz narrador do romance diz que há vários casos de loucura na família de Camila.
Eu, já disse tudo... e tudo ficou por dizer.

Mais um romance de Agustina, mais um prémio, mais uma adaptação do cinema. “Jóia de família”, primeiro volume da trilogia O princípio da incerteza, foi distinguido em 2001 com o Grande Prémio de Romance e da Novela da APE, e adaptado ao cinema por Manoel de Oliveira.

Jóia de família, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editora, 201
345 págs.

13 dezembro, 2016

"Estar" ou "Tar" – são ambos verbos? Não!


ESTAR, sim, é um verbo irregular.
TAR não existe.

Para exemplo, conjugo o verbo ESTAR no presente do indicativo:
Eu estou
Tu estás
Ele/Ela está
Nós estamos
Vós estais
Eles/Elas estão

Então, por que razão os argumentistas de ficção portuguesa usam e abusam do (não verbo) TAR?
-Tou à espera da Maria.
- Tu tás cada vez mais impertinente.
- O João ao telefone.
- Tamos na escola.
- Eles tão a chegar.

O que é isto?
Há quem considere “isto" aceitável em linguagem oral, mas para mim são aberrações. 
Aberrações cada vez mais utilizadas nas telenovelas produzidas e transmitidas em Portugal, que agridem os ouvidos e a alma dos verdadeiros portugueses. Uma vergonha!

Ponham os nossos actores a falar o português de PORTUGAL.
O verbo “Tar” não é ensinado nas escolas. Não existe.

09 dezembro, 2016

"Numa casca de noz" - Ian McEwan

“E PARA AQUI ESTOU EU, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui. (…) Dia e noite com a orelha comprimida contra as paredes ensanguentadas, não me resta alternativa. Escuto, tomo notas mentalmente e inquieto-me. (…) Considero-me um inocente, mas, ao que parece, faço parte de uma conspiração. Parece que a minha mãe, abençoado seja o seu coração a patinhar incessante e ruidosamente, é cúmplice.
Parece, mãe? Não, És. Tu és. És envolvida. Sei isso desde os meus primórdios.”
É assim, sem meias palavras, que um feto prestes a nascer partilha com o leitor TUDO o que ouve (e sente) mergulhado no líquido amniótico na barriga da mãe. Um feto entendido em vinhos franceses (que a mãe ingere em abundância), conhecedor do estado do mundo (pelas conferências em podcast que a mãe ouve regularmente), erudito em literatura (o som dos audiolivros chega-lhe através dos auriculares da mãe), cúmplice involuntário de uma conspiração (a mãe, de conluio com o amante, planeia envenenar o seu pai).
O feto-narrador é filho de pais separados.
O pai, que se chama John, é um gigante de um metro e noventa e dois, braços vigorosos e peludos, excesso de peso, com um problema de pele, psoríase. É um poeta não reconhecido, proprietário duma editora falida, apesar de ter dado à estampa um laureado com o Nobel.
A mãe, que se chama Trudy, e que ele conhece melhor pelo lado de dentro, é uma bela loira de olhos verdes, nervosa, egoísta, desonesta, cruel… esperem lá, eu amo-a, ela é a minha divindade e preciso dela. Retiro o que disse!
Foi o pai que saiu da mansão que herdou, o lar da sua infância, por acreditar ser sensato conceder a Trudy o tempo e espaço que ela lhe disse precisar. Espaço! Ela devia vir para aqui, onde nos últimos tempos mal consigo dobrar um dedo. Pai que continua a escrever poemas em louvor da mulher amada, que visita com regularidade na expectativa de que um dia ela lhe diga para volta. Mulher que o despreza e rapidamente conduz à porta, com a desculpa de que precisa de descansar.
Porta fechada para ao pai; porta aberta ao amante.
O amante, que se chama Claude, é um promotor imobiliário, estúpido e ambicioso, que só sabe falar de roupa e de carros, que abusa de vinho, de comida e de sexo.
Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. Esta turbulência arrancaria as asas a um Boeing. A minha mãe aguilhoa o amante, chicoteia-o com os seus gritos de feira. É o Poço da Morte!
Pois bem, é esse parolo de cérebro embotado que por cobiça (a mansão talvez valha oito milhões de libras), engendra um esquema para envenenar o homem que é seu irmão, marido de Trudy, pai do feto-narrador. O que é isto?
O feto esclarece: a minha mãe deu preferência ao irmão do meu pai, enganou o marido, destruiu o filho. O meu tio roubou a mulher do irmão, ludibriou o pai do sobrinho, insultou o filho da cunhada.
Se pensam que divulguei muito da trama, enganam-se. Não passei da página 37. Acreditem que o que se segue é surpreendente e “salva “o romance: crime; investigação policial; vingança do feto. Está na altura de intervir. De acabar o que tem de ser acabado. Está na altura de começar.

Numa casca de noz, não é um grande romance mas a escolha do narrador - um nascituro sem nome que disserta sobre o estado do mundo - é surpreendente. Tenho as minhas fontes, escuto.
Gostei!

Numa casca de noz, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 2016
180 págs.

06 dezembro, 2016

21º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


235-(cerca de 4-4-1930)
“Por mais que pertença, por alma, à linhagem dos românticos, não encontro repouso senão na leitura dos clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual a sua clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão álacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer.”

Leio como quem passa. E é nos clássicos, nos calmos, nos que, se sofrem, o não dizem, que me sinto sagrado transeunte, ungido peregrino, contemplador sem razão do mundo sem propósito.”

239-(10-4-1930)
"Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


01 dezembro, 2016

6º aniversário do "rol de leituras"


“Associa-te às pessoas mais nobres que puderes encontrar; lê os melhores livros; convive com os poderosos; mas aprende em solidão a ser feliz.”
Saul Bellow, escritor americano (1915-2005), in “Ravelstein”, Ed. Teorema, 2001

Mais um ano, que passou num ápice, e eis que o meu "rol de leituras" celebra o seu 6º aniversário.
Este não foi um ano fácil. Foi, aliás, bastante complicado. Pensei em desistir do meu rol, mil vezes.
2016 foi um ano difícil, com problemas relacionados com a saúde de familiares a deixarem-me angustiada, sem tranquilidade nem motivação para a leitura.
Hoje, no exacto dia do 6º aniversário do “rol de leituras”, ainda não sei o que fazer: continuar, ou ficar por aqui?
Os livros que acabaram empilhados sem serem lidos, com o último romance de Philip Roth a “olhar para mim”, instigam-me a continuar. Vou ter que decidir.
Hoje, não! Hoje vou festejar, começando a ler: “Numa casca de noz”, de Ian McEwan, depois, “salto” para Philip Roth, depois…

Obrigada a todos os que passaram por aqui.
Obrigada pela motivação e pela força.
Obrigada do coração.
Por favor leiam.
Abraço.

30 novembro, 2016

"Quando Lisboa tremeu" - Domingos Amaral

Apesar de todos falarem de Deus, aqueles foram os dias em que Deus abandonou as pessoas e as deixou totalmente sós no confronto com uma natureza brutal. Nesses dias, fomos como os primeiros seres que estiveram na terra, há muitos e muitos anos, antes de no mundo haver sabedoria ou cortesia ou solidariedade.
Sinopse:
“Lisboa, 1 de Novembro de 1755. A manhã nasce calma na cidade, mas na prisão da Inquisição, no Rossio, irmã Margarida, uma jovem freira condenada a morrer na fogueira, tenta enforcar-se na sua cela. Na sua casa em Santa Catarina, Hugh Gold, um capitão inglês, observa o rio e sonha com os seus tempos de marinheiro. Na Igreja de São Vicente de Fora, antes da missa começar, um rapaz zanga-se com a sua mãe porque quer voltar a casa para ir buscar a sua irmã gémea. Em Belém, um ajudante de escrivão assiste à missa, na presença do rei D. José. E, no Limoeiro, o pirata Santamaria envolve-se numa luta feroz com um gangue de desertores espanhóis.
De repente, às nove e meia da manhã, a cidade começa a tremer. Com uma violência nunca vista, a terra esventra-se, as casas caem, os tectos das igrejas abatem, e o caos gera-se, matando milhares. Nas horas seguintes, uma onda gigante submerge o Terreiro do Paço e, durante vários dias incêndios colossais vão aterrorizar a capital do reino. Perdidos e atordoados, os sobreviventes andam pelas ruas, à procura dos seus destinos. Enquanto Sebastião José de Carvalho e Melo tenta reorganizar a cidade, um pirata e uma freira tentam fugir da justiça, um inglês tenta encontrar o seu dinheiro, e um rapaz de doze anos tenta encontrar a sua irmã gémea, soterrada nos escombros.”
Quando Lisboa tremeu” é um emaranhado de histórias de gente desesperada que nas horas e dias seguintes ao terramoto que devastou Lisboa luta pela sobrevivência nas ruas da cidade destruída, alagada, queimada, pejada de ladrões e criminosos. Nos primeiros momentos depois do grande terramoto, os humanos transformaram-se em seres que só pensavam na sua própria sobrevivência.
Histórias contadas por Filipe Assunção, o piloto português atacado por piratas árabes, cativo em África durante dois anos, renegado pelo reino, pirata em barcos árabes durante mais de uma década. Filipe Assunção, ou melhor, o pirata Santamaria, acabou capturado por uma esquadra francesa na costa Algarvia, entregue às autoridades portuguesas, julgado e condenado à morte. Estava há três meses detido no Limoeiro, quando Lisboa foi literalmente dizimada.
Santamaria, sempre na companhia de Muhammed, o pirata seu fiel amigo, cruza-se nas ruas com os protagonistas dessas histórias: a bela irmã Margarida; o corajoso rapaz; o capitão Hugh Gold; a irmã Alice; Ester, a escrava negra; e outros mais. Ele ajuda-os e é ajudado. O facto de termos sobrevivido criou em nós uma cumplicidade especial que nos aproximava e humanizava, apesar dos conflitos desses dias.
Pois bem, mas essas histórias de confusão, dor e sobrevivência recordadas por Santamaria nas masmorras da Torre de Belém, para onde foi mandado pelo duro e impiedoso Sebastião José de Carvalho e Melo, seu "amigo de outros tempos", eu não vou divulgar, não.
Algumas são violentas, outras tristes e outras… divertidas. Leia-as. Ponto final.

Depois de ler a sinopse pensei: é agora que vou ficar a “saber tudo” sobre o terramoto que devastou Lisboa, em 1755. Bem, não fiquei a saber tudo sobre o terramoto, mas fiquei a saber um pouco mais sobre amizade, amor, solidariedade, esperança, respeito, bravura e serenidade.
Quanto às histórias, li-as mas... já as esqueci. 
Este romance lê-se (e esquece-se) facilmente.
Acontece!

Quando Lisboa tremeu, de Domingos Amaral
Ed. Casa das Letras, 2010
487 págs.

22 novembro, 2016

"Homem na escuridão" - Paul Auster


A mente tem uma mente que é só dela.
“Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, sozinhas também elas, Miriam, a minha única filha, que tem quarenta e sete anos e que tem dormido sozinha nestes últimos cinco anos, e Katya, filha única de Miriam, que tem vinte e três anos e que costumava dormir com um jovem chamado Titus Small, mas Titus está morto agora, e Katya dorme sozinha com o seu coração destroçado.”
Logo no primeiro parágrafo de “Homem na escuridão” conhecemos quatro das cinco personagens da história principal deste romance: o narrador/personagem August Brill, Miriam, Katya, Titus. Apenas falta Sonia, companheira de uma vida de Brill, mãe de Myriam, avó de Katya.
Eu disse «personagens da história principal» porque neste romance há outras histórias (com outras personagens) “dentro” da história dita principal. Histórias de amor, dor, perda, angústia, solidão, culpa, violência, sobrevivência. E há filmes. Os filmes estão a transformar-se numa droga. Creio que devíamos reduzir o número de sessões – ou mesmo parar por um bocado. Diz Brill à neta depois de mais uma maratona de filmes.
August Brill, 72 anos, viúvo(?), crítico literário reformado, vive em casa de Miriam no Vermont, há mais de um ano. Recupera de um acidente de viação. Depois da saída do hospital, não conseguiu recusar o convite da filha: pai, não está a perceber. Eu preciso de ti. Sinto-me tão horrivelmente sozinha naquela casa…Não sei até quando é que aguentarei tanta solidão…
Brill é o “ homem na escuridão”, que nas noites de insónia e angústia inventa histórias. Histórias onde a América não está em guerra com o Iraque; as Torres Gémeas não caíram; as eleições presidenciais de 2000 conduziram a uma sangrenta guerra civil. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-se de pensar nas coisas que preferiria esquecer.
Acontece que por vezes a mente mistura a ficção com a realidade, e Brill é obrigado a lembrar o que quer esquecer:
- a morte recente de Sonia, a mãe da sua filha, a mulher que amou, que não valorizou, que trocou por outra, que voltou a recebê-lo quando a tal outra o trocou por outro. Brill e Sonia não voltaram a casar (porque ela não quis) mas viveram juntos e felizes até que a morte os separou. 
- a triste solidão de Miriam, que canaliza todas as energias para o ensino e para a escrita, desde que há cinco anos foi abandonada pelo marido. Miriam e Richard cometeram o mesmo erro que Sonia e eu: casaram-se demasiado novos.
- o sofrimento indescritível de Katya, desde a execução de Titus no Iraque, para onde foi como voluntário. Ela tinha dezoito anos e estudava Cinema na universidade quando os pais se divorciaram. Absorveu bem o choque. Agora, aos vinte e três anos, está desfeita. Culpa-se pela morte do jovem que a amava mas que ela não conseguia amar.
August Brill, deitado na cama, de olhos fixos na escuridão, conta histórias a si próprio, enquanto o bizarro mundo continua a girar…
“Pigarreio e, passado um segundo, estou a tossir de novo e a vomitar gordas escarretas e, claro a tapar a boca para abafar o ruído… de maneira que engulo em seco e deixo que esta porcaria viscosa deslize pela minha garganta, e digo para mim mesmo pela quinquagésima vez nos últimos cinquenta dias que tenho de deixar de fumar, aí está uma coisa que eu sei que nunca acontecerá, mas mesmo assim continuo a dizer para mim mesmo que tenho de deixar de fumar, só para me torturar com a minha própria hipocrisia.”

Leia e… veja filmes: “Ladrões de Bicicletas”, “Viagem a Tóquio”… Há certos filmes que são tão bons como livros, tão bons como os melhores livros.
Leia e… apaixone-se pela vida.
A noite ainda é uma criança…

Homem na escuridão, de Paul Auster
Tradução de José Vieira de Lima
Edições ASA, 2008
160 págs.

18 novembro, 2016

"Santo António" - Agustina Bessa-Luís

«A tristeza é a dor silenciosa» - diz S. António.

S. António é um confessor, um intermediário do perdão. Confessor como pregador; confessor como confidente.
Nas badanas do livro um curtíssimo texto avisa: "SANTO ANTÓNIO é a primeira obra em que Agustina Bessa-Luís transpõe os caminhos da ficção, para se deter num personagem histórico… uma biografia conduzida pela meditação... um livro como só um leigo pode escrever”.
Foi, pois, avisada, que iniciei a leitura da biografia do Santo, advogado das coisas perdidas, o protector dos casamentos.
S. António nasceu em 1190 (data provável), em Lisboa, Portugal, à época designado como o fim do mundo. Foi frade agostiniano no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa; aprofundou os estudos religiosos no Convento de Santa Cruz, em Coimbra; tornou-se franciscano em 1220; viajou por Marrocos, Itália, França; faleceu em 1231, em Pádua, onde repousam os seus restos mortais; foi canonizado pela Igreja Católica em 1232. 
Segundo Agustina, S. António possuiu as sete energias instauradas pela inteligência; possuiu o intelecto individual que participa da eternidade da inteligência e está acima do pensamento; possuiu a verdade, possuiu a alegria, pois a alegria brota da plenitude do conhecimento, possuiu a prova apodíctica e também a vida, porque a vida é inseparável da inteligência; possuiu a perfeição; possuiu o dom da pregação
«Vai, vende tudo o que tens e segue-me», diz-lhe o Senhor.
Assim teria feito António, herdeiro de muitos bens.
“Na vida de Jesus há dois períodos distintos um do outro. O primeiro é o tempo poético, aquele em que se desloca pela Galileia, chama os seus discípulos, convive com agente simples, gente que é pecadora, crédula e amorável. O outro é o tempo duma experiência urbana, é a entrada na cidade de Jerusalém; aí, mesmo quando não existe a hostilidade, insinua-se a difamação. E perante a grande urbe de coração seco, impenetrável ao mistério, Jesus chora. São lágrimas de um homem posto perante a vergonha dum comportamento que impõe o silêncio de Deus.
Em S. António parece haver também esses dois tempos humanos. Foi o jovem inquieto de sabedoria e glória santa, deixou os lugares familiares para ir ao encontro do que não desejava que fosse fútil nem vulgar. Depois, foi o pregador, comovido perante a planície paduana; e mais tarde foi o homem velho, aquele que, sem ter muita idade, conhece o seu coração e treme perante nenhuma verdade. E quando se torna amigo, conselheiro e chefe viril duma província espiritual, a morte chama-o, sem surpresa, porque desde há muito há nele um pacto com a morte."

Foi uma experiência gratificante e enriquecedora ler a história de SANTO ANTÓNIO escrita pela perspicaz Agustina.
Não foi tarefa fácil, pois a sua prosa é rebuscada, saltitante, difícil. Mas, há que dizê-lo, também é sensível e inteligente. 
Tenho para mim que escrever sobre a vida de uma pessoa deve ser complicado. E se essa pessoa é o Santo de todo o mundo, então, deve ser complicadíssimo. Só posso imaginar o quanto Agustina teve de consultar, escrever e reescrever até chegar à versão final desta biografia. Boa ou má, os entendidos que se pronunciem.
Eu, apenas aconselho que a leia. Sem pressa. Devagar, devagarinho, acabará por saber quem foi, por onde andou, o que fez, ensinou e pregou o "nosso Santo casamenteiro". 

«Não há nada escondido que não venha a revelar-se» - diz S. António.

Santo António, de Agustina Bessa Luís
Guimarães Editora, 1993
206 págs.

15 novembro, 2016

Vivemos com uma pessoa…


Vivemos com uma pessoa dois, dez, vinte anos. Surpreende-nos a quantidade de coisas que esquecemos? Há porções inteiras da nossa vida que desaparecem pura e simplesmente; as nossas recordações confundem-se. O que andámos a fazer durante todo esse tempo? De que maneira passámos o tempo como casal?
Podem tornar a emergir fragmentos dispersos aqui e além, mas nunca esquecemos aquele primeiro encontro. Aquelas mãos a atraírem-nos para mais perto, a fecharem-nos os olhos à medida que saboreamos a doçura da boca daquela pessoa estranha. Vislumbres de pele, olhos, cabelos a meterem-se de premeio, ombros. Enfiámos todas essas imagens naquele glorioso encadeado, e a cadeia nunca se quebrou, as contas nunca se soltaram do fio. Ficarei contigo para sempre. E surpreender-nos-emos ao perceber que, muitas vezes, é tudo quanto conseguimos guardar do outro.”

“Esforçamo-nos toda a vida por esquecer as pessoas que nos magoaram, mas, ao ficarmos mais velhos e mais fracos, a sua lembrança vem novamente à tona, como uma bolha de água. Temos de nos render, porque nos sentimos demasiado fatigados para lutar e tornar a afundá-la. E talvez, inesperadamente, descubramos que, em lugar de nos reavivar a ira, essas recordações produzem um inesperado encanto.”

Tirei daqui: 
Texto de “Casa Rossa”, de Francesca Marciano, Ed. Dom Quixote, 2006
Foto da net - pintura de Romero Britto.

13 novembro, 2016

"A gaivota" - Sándor Márai


As recordações pesam muito. É uma pena.
Ele é um alto funcionário ministerial, húngaro, de quarenta e cinco anos, culto, sensato, honrado e solitário.
Sentado à secretária, escrupulosamente arrumada, olha o documento que acabou de redigir e, com um lápis roxo, escreve na margem da folha: «Estritamente confidencial».
Daí a pouco seria passado a limpo pela sua assistente, metido num envelope e levado ao ministro. Tudo feito de forma estrita e confidencial. Depois, seria impresso com tinta negra, pelas rotativas das grandes máquinas de impressão, declamado na rádio, lido por milhares e milhares de pessoas e… o coração da nação começaria a bater.
Mas o que era aquilo que tinha acabado de fazer?
Era um despacho oficial de enorme significado, que iria afectar a vida de milhões de pessoas.
Sentado à secretária, na grande sala ovalada, ele tapa a cara com as mãos trémulas. Pensa na guerra e tenta imaginar o que essa palavra, na realidade, vai significar no dia seguinte, ou daí a um ano… pensa na sua própria guerra mundial, a sua própria história mundial. Sente-se estranhamente tranquilo.
Nessa noite… vai à Ópera. Vai-se vestir de gala e vai à Ópera…
Entretanto, no exterior, uma mulher jovem e bela sobe apressadamente as escadas do prédio. Vai ao seu encontro, mas ele ainda não o sabe. Também ela vai encontrar-se com um homem que nunca viu antes.
Quando ela entra no gabinete, ele levanta-se da secretária. Observam-se longamente.
«Tão pálido», pensou a mulher.
«Devo parecer pálido», pensou ele. Imóvel, com o cartão dela na mão, uma sensação de insegurança invade-lhe o corpo.
Esta mulher já nasceu e morreu uma vez.
Esta mulher já entrou, há cinco anos, no meu gabinete, exactamente da mesma maneira; media um metro e sessenta e oito e pesava cinquenta e dois quilos. Queria que morrêssemos juntos, mas eu não podia cumprir o seu desejo.
Morreu sozinha… enterrada bem fundo na sua campa. Mas eis que ela volta.
Assombrado, manda sentar a mulher desconhecida e inicia um interrogatório. Ela responde educadamente. Chama-se Aino Laine «a única onda», é finlandesa, licenciada em inglês e francês, professora, vinte anos, alta, ossuda e loira. Solicita autorização de residência e procura um emprego na Hungria.
- Posso contar com a sua ajuda, senhor conselheiro?
- Estamos em guerra, não sabe?... Volte para a Finlândia…
Aino fala fluentemente húngaro e (apenas) a sua voz não lhe faz lembrar a voz da mulher morta.
Então, contrariando a honra e o decoro das suas funções, ele pergunta à mulher:
- Quer ir comigo à Ópera esta noite?
(A resposta dela vem logo a seguir… mas no livro.)
Ele amou uma única mulher: Ili, inteligente, bonita e saudável. Suicidou-se aos vinte e dois anos, com cianeto. Era química.
Nessa manhã, no ministério, encontrou-se com o duplicado de Ili.
À noite, frente ao espelho, penteia-se, observa o rosto pálido, marcado e descarnado, e reflecte:
O que esperaste da primeira, e o que esperas agora da sua cópia? A felicidade? A felicidade não existe, meu pobre rapaz. No fundo da existência apenas há o tédio e a fraqueza. Deus, ao criar o mundo, não conseguiu construir melhor.
Depois, sai de casa. Encaminha-se para a Ópera. Está um tudo-nada atrasado. Estará «a única onda» à sua espera?
Há noites em que não importa o que se passa…

O que importa é ler. Ler, de dia ou de noite, escritores como Sándor Márai (1900-1989), senhor de uma escrita incomparável, inteligente, tocante, perfeita.
A gaivota”, mesmo não sendo o que de melhor já li dele, é… um assombro.
Encontrámo-nos e despedimo-nos…

A gaivota, de Sándor Márai
Tradução de Piroska Felkai
Ed. D. Quixote, 2016
158 págs.

08 novembro, 2016

Nós somos aquilo que lemos...


Os livros nas minhas estantes não me conhecem até eu os abrir.
Sócrates, citado por Alberto Manguel.

"Descobri pela primeira vez que sabia ler aos quatro anos. (…)
Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais.
Só aprendi a escrever muito mais tarde, quando tinha sete anos. Talvez pudesse viver sem escrever. Não acho que pudesse viver sem ler. (…)
Depois de ter aprendido a ler as letras, lia tudo: livros, mas também, avisos, anúncios, as letras miudinhas nas costas dos bilhetes de eléctrico, cartas deitadas no lixo, jornais velhos apanhados debaixo do meu banco no jardim, grafitos, a contracapa de revistas nas mãos de outros leitores, no autocarro. (…)
A experiência das coisas tive-a em primeiro lugar através dos livros. (…)
Cada livro era um mundo em si e nele eu procurava refúgio.

Ler começa com os olhos. (…)
Um facto é óbvio para todos os leitores: as letras são apreendidas pela visão. Mas através de que alquimia se transformam as letras em palavras inteligíveis? Que se passa dentro de nós quando nos confrontamos com um texto? Como é que as coisas são vistas, as “substâncias” que chegam através dos olhos ao nosso laboratório interno, as cores e formas dos objectos e das letras, se tornam legíveis? Que é, na realidade, o acto a que chamamos ler?

Ler em voz alta, ler em silêncio, ser capaz de transportar na mente bibliotecas íntimas de palavras relembradas são capacidades extraordinárias que adquirimos através de métodos incertos. No entanto, antes de estas capacidades poderem ser adquiridas, o leitor precisa de aprender a técnica básica de reconhecer os signos comuns pelos quais uma sociedade escolheu comunicar; por outras palavras, tem de aprender a ler.

Nós somos aquilo que lemos.”

Alguns livros são para saborear, outros para engolir de uma assentada, e alguns, poucos, para mastigar e digerir.
Francis Bacon, citado por Alberto Manguel.

Tirei daqui:

05 novembro, 2016

"Casa Rossa" - Francesca Marciano


Há qualquer coisa que foi transmitida de mulher para mulher na minha família. Não sei como lhe chamar. Um segredo, um legado tácito - precisa de se manter oculta, é uma coisa que envergonha. A sua carga modelou cada uma de nós, deformou-nos para sermos o que hoje somos, tal como as videiras são lentamente forçadas pelo arame.
Enquanto lia “Memórias laurentinas”, de Agustina Bessa-Luís, veio-me à memória este romance de Francesca Marciano, que li em 2006 e não mais esqueci.
Agora não o reli, apenas folheei as páginas em busca de frases sublinhadas para desvendar um pouquinho da comovente e fascinante história de uma família italiana, do século XX.
História reconstituída por Alina com fragmentos do passado da família, que também é sua, com segredos da família e do país, que há muito deviam estar enterrados, com mistérios da vida de três extraordinárias mulheres que habitaram Casa Rossa, a magnífica casa de campo dos Strada, em Puglia:
Renée Strada (avó) - uma bela tunisina, mulher e musa de um pintor que abandonou por uma mulher e fugiu para a Alemanha nazi;
Alba Strada (mãe) - viveu a dolce vita na Roma dos anos cinquenta e casou-se com um guionista melancólico que morreu em circunstâncias misteriosas;
Isabella Strada (neta) - juntou-se às Brigadas Vermelhas nos anos 70.
Comprada pelo avô Strada, nos finais dos anos 20, setenta anos depois Casa Rossa foi vendida.
... completamente despida numa só manhã, voltará a emudecer. Uma tela branca, onde outras pessoas escreverão a sua história.
Alina Strada, irmã de Isabella, filha de Alba e neta de Renée, fecha a porta e... conta-nos uma história apaixonante, acerca do que se perde no caminho.
Casa Rossa lê-se e não se esquece.
Verdade!

Casa Rossa, de Francesca Marciano
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
Ed. Dom Quixote, 2006
398 págs.

01 novembro, 2016

20º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


226-(21-2-1930)
“É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo.”

229-(23-3-1930)
“Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo…”

“O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


28 outubro, 2016

"Memórias laurentinas" - Agustina Bessa-Luís


… a vida é assim, o peixe mau não tem espinhas e o bom está cheio delas.
Memórias… memórias… memórias.
Este romance é um entrelaçado de memórias: privadas (a vida de uma família vulgar, na segunda metade do séc. XIX, início do séc. XX)) e públicas (valores e tradições vigentes na época).
A narrativa começa com o estranho suicídio de António Guedes Ferreira, filho de vinhateiros ricos, bacharel em leis, nascido no Lugar das Cales, em Loureiro, uma aldeia de velhos solares e casebres miseráveis, de má fama, de malfeitores. Dizia-se que lá se matavam as pessoas “por um bom dia”.
Suicídio cometido depois de uma conversa de António Guedes com Perico, um ladrão de estrada, cruel, falso e mentiroso, que fazia consertos lá em casa, pequenos recados. Não eram amigos. Respeitavam-se, apenas.
Amigo de verdade António Guedes só tinha um: António Soeiro, vizinho, da sua idade, como ele proprietário. Soeiro é um rufião, vaidoso, ambicioso, oportunista, viciado no jogo. Acontece que António Guedes, homem fraco e crédulo, só  vê virtudes no amigo e empresta-lhe elevadas somas de dinheiro. Dinheiro para sempre perdido pois Soeiro está arruinado. Perdeu no jogo a fortuna herdada do pai.
Certo dia, ao regressar de um encontro com os credores, Soeiro encontra Perico e diz-lhe: temos de falar. Falam e nos dias seguintes o malfeitor ronda a casa de António Guedes. Acaba por entrar, manso como um cordeiro, e pede para falar a sós com ele.
O que lhe disse não ficou registado nem ninguém ouviu. Mas foi uma revelação tão poderosa e demolidora que António Guedes morreu disso. Envenenou-se. Só Perico sabia as razões.
(Eu também sei, mas nada desvendo, para que você as encontre espalhadas nas páginas deste romance.)
António Guedes casa cedo com Maria Maximina, mulher inteligente e trabalhadora, filha de uma família com títulos e apelidos mas sem fortuna. Após a morte do marido Maximina fica a braços com três filhos e poucos rendimentos, dado que a maior parte dos bens vai, por direito, para Lourenço Guedes Ferreira, o filho mais velho, o morgado.
Lourenço Guedes fica rico aos dezoito anos, aos dezanove já tinha gasto quase tudo e aos vinte está arruinado. Esbanja dinheiro em casas de jogo com o filho de António Soeiro, como fizera o pai na versão antiga. Aos vinte e cinco casa com uma jovem de Santa Comba. Nascem cinco filhos, só dois sobrevivem: Lourenço, doido acabado, e Zília. Enviúva e volta a casar, com Lourença Jurado, vinte anos mais nova, filha de um dos homens mais ricos de Zamora.
Para refazer a vida vai para África, seduzido por um contrato com os caminho-de-ferro e os negócios em parceria com... Soeiro, o vizinho!
África salvo-o da penúria. No regresso definitivo, compra casa em Zamora e monta uma fábrica de moagem. Prospera. Chama, então, para junto de si, os filhos do primeiro casamento e… tudo começa a correr mal. O jovem Lourenço, para encobrir roubos de farinha que vendia às escondidas, incendeia o armazém. O pai recusa-se a internar o filho, reconstrói o armazém e volta à luta. Por pouco tempo pois o filho louco acaba por destruir a totalidade da fábrica.
Lourenço Guedes aceita aquilo como um sinal, sempre benvindo, de que devia retomar o caminho noutra direccção, e toma duas decisões: dá ao filho a parte da herança da mãe e manda-o viajar; vende o que lhe resta, indemniza os fregueses e volta para Portugal com a mulher e as filhas.
Instala-se em Matosinhos e obtém a concessão dos trabalhos do Porto de Leixões. Volta a ganhar muito dinheiro.
Lourenço Guedes, fez duas fortunas, salvou a pele, teve catorze filhos, dos quais dez inviáveis, acumulou decepções e chamou a tudo isso uma história de loucos. E escreveu um diário, que salvou do esquecimento factos marcantes da vida de três gerações da sua família.

Desvendei muito? Não! Repare que nada disse sobre as mulheres da família; nem sobre as viagens de Lourenço, o incendiário; nem sobre...
As memórias laurentinas assentam numa história de vingança que leva séculos a consumar.
Acredite que MUITO ficou por desvendar.

Se gosta de sagas familiares inteligentes, convincentes, surpreendentes, esta é para si.
Acomode-se no sofá, livro nas mãos, manta nas pernas (já apetece), um lápis para sublinhar e um bloco para criar a árvore genealógica dos Guedes Ferreira. Isto, para não se perder na intrincada trama.
Eu não me perdi, mas desisti... da árvore, claro!

Memórias laurentinas, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editora, 1996
299 págs.