01 agosto, 2016

Vou de férias… depois de reproduzir outra história de Rubem Fonseca

HUMILHAÇÃO
Você já foi humilhada? Menosprezada? Desdenhada? Aviltada? Eu já, e antigamente ficava pálida, envergonhada, com vontade de morrer. Isso acabou. E vou dizer como. É uma história breve, não vai ocupar o tempo de vocês. Botei um anúncio no jornal, sabe, naquelas páginas usadas por prostitutas, fregueses, sujeitos em busca de sexo. Todo o jornal tem isso. Escondido no meio daquelas páginas de pequenas propagandas.
Cristina, mulher jovem, esbelta, bonita. Preço razoável. Faz tudo, inclusive coisas que o freguês nem imagina. Vou a casa do interessado. Caixa postal 555.
Fui a casa do primeiro que respondeu ao meu anúncio. Toquei a campainha. Um sujeito calvo, de cabelos grisalhos abriu a porta.
«Sou a Cristina.»
«O quê?»
«Sou a Cristina, do anúncio.»
Depois que o sobressalto da sua surpresa passou ele disse:
«Você não era jovem, esbelta e bonita? O que estou vendo na minha frente é uma gorda de mais de cem quilos.»
«Cento e dez», corrigi.
«Está achando que eu vou pagar para foder um bagulho como você? Pode dar o fora, baleia.»
Então cravei uma faca no corpo do sujeito. Cravei fundo.
Os gordos têm muita força nos braços e usam roupas largas, ótimas para esconder facas ou outras armas.
Ele caiu no chão. Verifiquei que estava morto. Procurei e encontrei o recorte do meu anúncio, que coloquei no bolso, junto com a faca, que lavei na pia do banheiro. A carteira do indivíduo estava cheia de dinheiro. Mas não sou ladra.
Saí e passei na confeitaria. O garçon recebeu-me amavelmente.
Garçons sempre gostam muito de mim.
«O de sempre, senhorita? A torta, a caixa de sorvete e os chocolates?»
«Vou querer também um pacote de balas amanteigadas.»
Peguei o embrulho e fui para casa. Comecei comendo a torta, depois os chocolates, depois o sorvete. Chupei as balas enquanto via televisão.
Eu tinha que ficar gorda, muito gorda, não podia ter menos de cem quilos. Era a única maneira de me vingar daqueles que gostavam de humilhar os outros.
Amanhã sai outro anúncio meu no jornal.”

Agora sim, vou de férias do meu rol de leituras.
Nos próximos trinta dias nada postarei mas continuarei a ler, claro!
Seleccionei:





Até Setembro.
Boas férias para todos, com cativantes e divertidas leituras.
(Rubem Fonseca, me desculpe, cara!)

29 julho, 2016

"Histórias curtas" - Rubem Fonseca

Eu sou ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
Pobreza? O sujeito se torna ladrão porque é pobre? Que besteira. Tem ladrão mais rico do que ladrão pobre, está provado que quanto mais dinheiro o sujeito tem mais dinheiro ele quer ter. (…)
Distúrbio mental? Eu sou ladrão e não sou maluco, nem tenho distúrbio mental. E que merda é exatamente isso de distúrbio mental? (...)
(Um bom trabalho)

Antes de comprar este livro nada conhecia de Rubem Fonseca. (Grande falha minha, eu sei, nada de críticas.) 
Então, por que razão o comprei?
Confesso que a capa dourada me lembrou o sol de verão; confesso que histórias curtas são o melhor que há para ler esparramada numa toalha de praia; confesso que sou louquinha por banhos de mar - em água fria, morna ou quente, no mar eu entro sempre (mas fujo apavorada da ondulação), depois, ou saio rapidamente ou por lá fico “a salgar” de satisfação; confesso que na praia a minha rotina é: caminhar, banho de mar, ler, banho de mar, ler….;  confesso que enquanto durou a leitura deste livro essa rotina passou a ser: caminhar, banho de mar, ler, ler, ler, banho de mar, ler, ler, ler… e rir muito!
Trata-se de uma colectânea com 38 histórias curtas (algumas curtíssimas) brilhantes, irreverentes, destrambelhadas, loucas e divertidas, que, agora muita atenção, de forma rigorosa, implacável mas ao mesmo tempo delicada, relatam temas seríssimos como: velhice, degeneração da mente, preconceito racial, violência urbana, luxúria, sexo, erotismo, prostituição, obesidade, desumanidade, riqueza, miséria, etc., etc.,
Que me desculpe o autor mas não resisto a reproduzir uma, sem censura:

A PREFERIDA
Minha mulher Raquel é ciumenta. Ela costumava me seguir, disfarçadamente, ou então contratava alguém para fazer isso.
Tenho que tomar muito cuidado quando abraço a minha Preferida. Sinto uma espécie de eflúvio, que vem da terra, que vem do ar, um perfume embriagador.
Minha mulher me perguntou:
«Você não gosta mais de fazer amor comigo, Pedro?»
«Gosto… gosto…»
«Então por que não faz?»
Abraço minha mulher, penso na minha Preferida e consigo cumprir minha obrigação de marido
Confesso que antes de encontrar a minha Preferida eu era um sujeito promíscuo. Não sei quantas abracei, às escondidas, algumas vezes à noite, sempre tendo o cuidado de não ser visto por ninguém.
Mas tornei-me outra pessoa depois que encontrei a minha Preferida. Quando eu a abraçava, ficava excitado, encostava o meu pénis nela e ejaculava, Isso me criava um problema, ou melhor, dois problemas. Eu tinha que entrar em casa, correr para o banheiro e lavar aquela cueca. Depois, na cama, era um problema com Raquel. Por uma dessas coincidências – quando penso em coincidência vem-me à mente a frase de Einstein «Coincidência é a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato», cujo significado nunca entendi direito, mas também nunca compreendi sua fórmula de equivalência massa-energia, E=m2, a equação mais famosa do mundo. Alguém entende? Uma vez pedi ao meu professor de física, na universidade, que me explicasse aquilo e ele não conseguiu-, mas, como eu ia dizendo, por uma dessas coincidências, em um dos dias que encontrei a minha Preferida, Raquel quis fazer amor comigo.
«Novamente, Pedro? O que está havendo? Você tem outra mulher? Anda, diz a verdade, seu farsante, você anda com outra mulher?»
«Não, Raquel, estou apenas cansado.»
«Cansado de ficar sentado no escritório? Você pensa que eu sou alguma idiota?»
Raquel me agarrou pelo pescoço com tanta força que quase desmaiei.
«Se eu pegar você com outra mulher eu… mato os dois, os dois», ameaçou Raquel.
Certa ocasião eu li, não lembro onde, uma frase que dizia que existe um tempo para ousadia e um tempo para cautela, e o homem sábio conhece o momento de cada um deles. Eu me considerava um homem sábio, mas infelizmente estava cada vez mais ousado e menos cauteloso.
Um dia eu estava fazendo sexo com a minha Preferida quando fui surpreendido pelo flash de uma máquina fotográfica. Alguém me agarrou, senti uma pancada na cabeça e desmaiei
Acordei numa cama de hospital, com os pulsos presos no gradil da cama.
Um sujeito de avental branco entrou no quarto.
«Está na hora da sua injeção», ele disse.
«Injeção? Por que estou preso aqui nesta cama?»
«O senhor sofre de uma doença muito grave. Dendrolatria patológica de terceiro grau.»
«Não sofro de doença nenhuma, quero ir embora, solte os meus pulsos, quero ir embora.»
«Temos fotos que comprovam o seu comportamento psicopatológico.»
«Fotos? Que fotos?»
«O senhor quer ver?»
«Quero, muito.»
Ele tirou do bolso uma foto e me mostrou. Eu estava fazendo amor com a minha Preferida, vestido, mas com o pénis de fora, enfiado nela.
«Desde quando a cópula é um comportamento psicopatológico?»
«Desde que ocorra com uma árvore. O exame de DNA vai provar que os inúmeros vestígios de esperma no caule são da sua autoria.»
A foto continuava na minha mão. A minha Preferida era mesmo uma árvore de caule grosso. Então ocorreu uma revelação arrebatadora: eu sempre fizera sexo com árvores, eu copulava com as árvores.
Antes que eu pudesse raciocinar sobre isso, o médico me aplicou uma injeção e perdi os sentidos.”

Filho de portugueses transmontanos que emigraram para o Brasil, Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925, mas é carioca desde os oito anos.
Contista, romancista, ensaísta, guionista e «cineasta frustrado», foi galardoado com diversos prémios literários, nomeadamente com o Prémio Camões, 2003.
Procure na net e leia tudo o que encontrar sobre este “ jovem senhor”, dono de uma escrita original, simples, irónica, inteligente, sagaz, risível.
«Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda.»
Bolas!

Histórias curtas, de Rubem Fonseca
Sextante Editora, 2016
163 págs.

26 julho, 2016

É a escuridão, não é?


"A memória é como o chão de uma casa, de uma casa de madeira, há tábuas que vão ficando podres, embora já estejam a esboroar-se parecem iguais às outras todas, está-se seguro, continua-se a andar, mas, de repente, há qualquer coisa que desaparece, desaparece e já não se pode alcançá-la, há uma tábua que cede e todas as coisas que estavam à sua volta são como que sorvidas. Quanto mais os anos vão passando, mais os abismos aumentam, só há turbilhões a girar, uma pessoa anda cada vez com mais cautela por entre esses sorvedouros, basta o mais pequeno erro para que o pouco que ainda conserva vá parar lá dentro.
É a escuridão, não é? É a escuridão, mas continua-se a viver, e o mais tremendo, o que mais enraivece, é que o coração e a barriga continuam a funcionar, possam continuar a funcionar durante anos e anos, quando uma pessoa já deixou de existir.”


Tirei daqui: “Para uma voz só”, de Susanna Tamaro, Ed. Presença, 1997
Foto da net.

19 julho, 2016

O que é uma mulher?


Eis a definição que encontrei numa das páginas do romance “As terras do risco” (1994), de Agustina Bessa-Luís:

“- O que é uma mulher?- disse Baltazar (…) Confesso que as vejo sempre como uma coisa de pouco valor, que nunca nos serve o bastante e povoa a nossa solidão e às vezes a degrada. Não sei de pior companhia do que a duma mulher. Faz barulho com a loiça, bate com as portas, arrasta as cadeiras, queixa-se o dia inteiro, encontra todas as maneiras de ser desagradável, tem um cheiro horrível às vezes, e quer que a gente lhe diga que a ama. Quer ser notada em casa e na rua, usa roupas impróprias no amor e no trabalho. Só aqueles brincos enormes lhe dão um ar arrepiante. São tão ignorantes! Mesmo quando fazem o liceu e um curso superior, ficam ignorantes. Não são capazes de ideologia nem de utopia nenhuma. Quanto a construírem o mundo, limitam-se a limpar-lhe o pó e a fazer constar que isso é uma regra de oiro. Eu não digo que não tenham jeito para governar, mas o que eu digo é que se enchem de complexos de culpa e fazem do governo uma atitude e não um ofício. Não sei como as hei-de tratar. Já não lhes podemos bater nem fazer-lhes filhos; nem pedir-lhes que nos façam a cama e a sopa. Respondem: “Basta de autoritarismo militar, de faxina, de continência, de galões.” São mais brutais e menos guerreiras. Querem convencer e não agradar. Como é possível?"


É fértil e incontrolável a imaginação de Agustina.
Eu, pasmei!!!

16 julho, 2016

"Um postal de Detroit" - João Ricardo Pedro


Ó estimado médico, repara no chão repleto de frutos podres!
No dia 11 de Setembro de 1985, pelas 18 horas e 37 minutos, dois comboios colidiram frontalmente no troço que liga a estação de Nelas ao apeadeiro de Alcafache - o Sud Express que rumava a Paris com o Regional proveniente da Guarda.
A colisão, seguida de incêndio, fez 49 mortos (alguns dos quais nunca chegaram a ser identificados) e 64 desaparecidos.
Este acidente, o pior da história dos Caminhos de Ferro Portugueses, é o ponto de partida do segundo romance de João Ricardo Pais, autor do celebrado “O teu rosto será o último”, Prémio Leya 2011.
Porquê esta escolha? Ele explica, antes do início do romance:
“Entre os passageiros do Sud Express, encontravam-se duas pessoas minhas conhecidas – uma sobreviveu, a outra não. Em 1985, nada as unia, para além da circunstância de viajarem no mesmo comboio, com destino a Paris.
Por mais que se procure, nenhuma delas poderá se encontrada nas páginas deste livro, mas as páginas deste livro não existiriam sem elas.
Quanto ao resto, é tudo inventado.”
Depois, avança para a primeira das duas partes/períodos do romance (1985-1986 e 1992-1993), com um telefonema da polícia a informar os familiares de Marta - jovem de dezanove anos, estudante de Belas-Artes, excelente nadadora, bela e feliz - que tinha sido encontrada a sua mochila nos destroços do Sud Express. Apenas isso, a sua mochila. Não havia corpo. Havia apenas dúvidas.
Por que motivo se encontrava Marta a bordo de um comboio com destino a Paris-Austerlitz? E por que razão apanhara esse comboio na estação de Porto-Campanhã, ou na estação de Aveiro, ou na estação de Coimbra-B, ou na estação de Pampilhosa, ou na estação de Mortágua, ou na estação de Santa Comba Dão, ou na estação de Nelas, quando, no mesmo dia, um outro comboio internacional com destino e Paris-Austerlitz partira da estacão de Lisboa-Santa Apolónia, bem mais próxima da casa onde estava a passar férias?
Estarão as respostas no quarto de Marta? Nos cadernos de desenho, verdadeiros diários de um quotidiano sórdido e maravilhoso? Na fotografia de Marta abraçada a uma amiga na Praia da Zambujeira do Mar? Nos muitos desenhos de uma mulher sem rosto? No postal guardado da cidade de Detroit? Na casa do Alentejo onde passava férias com Sofia, a colega de Belas-Artes encontrada dentro da banheira com os pulsos cortados, no mesmo dia do acidente ferroviário?
… trinta anos depois, seis internamentos depois, centenas de caixas de comprimidos depois, sessões de psicanálise, mesas de pé-de-galo, sanatórios, termas, casas de repouso, choque elétricos, dou por mim deitado na cama, de olhos pregados no tecto, a pensar nesses dois pobres maquinistas, frente a frente, sem tempo para uma travagem de emergência… João, o irmão mais novo, recria os passos de Marta antes do acidente e, numa narrativa brutal, dolorida, delirante, desvenda tudo sobre ela, sobre os pais e sobre ele próprio – o mais excluído dos seus cadernos. E o que eu me esforcei por existir! O que eu me esforcei por merecer a atenção e Marta…

Postal de Detroit” conta-nos uma história bem engendrada, inteligente, bem escrita, sobre a “ténue fronteira que existe entre sanidade e loucura e os laços perturbadores que tantas vezes unem a vida à arte”. Contudo, a estrutura narrativa com avanços e recuos, o excesso de personagens secundárias e páginas de texto desinteressante, parecendo desgarrado da trama, tornam a sua leitura maçadora. Nem as muitas referências ao Sporting Clube de Portugal (o meu clube) me motivaram, e lá fui arrastando a leitura até ao fim. Lamento!
I never saw de Sea, escreveu Marta no seu último caderno.
O que escreveu mais?

Um postal de Detroit, de João Ricardo Pedro
Ed. D. Quixote, 2016-07-16
223 págs.

14 julho, 2016

Sabe-se lá...


“Sabe-se lá porque é que, com o passar dos anos, se chora cada vez mais, começa-se e não se consegue parar, continua-se durante horas e horas, sem nada que console. O coração está mais fraco, mais exposto, as pálpebras amolecem. Só se pára no sono, quando se adormece. Foi o que me aconteceu ontem.”


Tirei daqui: “Para uma voz só”, de Susanna Tamaro, Ed. Presença, 1997
Foto da net.

05 julho, 2016

17º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

172-(1929?)
“O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.”

“Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver.”

178-(1929?)
“Cada vez que o meu propósito se ergueu, por influência dos meus sonhos, acima do nível quotidiano da minha vida, e um momento me senti alto, como a criança num baloiço, cada vez dessas tive que descer como ela ao jardim municipal, e conhecer a minha derrota sem bandeiras levadas para a guerra nem espada que houvesse força para desembainhar.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


01 julho, 2016

"As terras do risco" - Agustina Bessa-luís


Arrábida quer dizer lugar de oração.
Aí se encontram as Terras de Risco.

“O que trazia o prof. Fabre d’Oliver à Serra da Arrábida com a sua bela esposa de enigmáticos olhos permanentemente sem segredos, era a curiosidade. A curiosidade era o vício do professor Fabre. Possivelmente, os outros vícios são seus primos carnais. O professor Fabre tivera contacto com um estudioso de História que lhe garantira que em Portugal tudo estava por descobrir: tesouros escondidos e espécies raras. Inclusive uma espécie de gato selvagem que dá pelo nome de Khoi, semelhante ao gato persa. Mas o que verdadeiramente o atraíra fora o instrumentos em latim do contrato de casamento de Isabel de Avis como duque de Borgonha. Que no contrato de casamento aparecessem três testemunhas que eram mercadores florentinos, isso também nada tinha de estranho, posto que os delegados banqueiros de Florença nada mais faziam ali do que garantir o dote da noiva. Mas que um deles se chamasse Heitor Sequespee, isso já era mais impressionante e digno de atenção. Como era que durante quinhentos anos ninguém reparara naquilo? O professor Fabre teve um ataque de curiosidade tão intenso que lhe caiu uma porção de cabelo e engordou seis quilos.”

Foi na minha varanda solarenga virada para o mar, que “penetrei” na densa, grandiosa, bela, labiríntica e perigosa Arrábida, lugar central da acção deste “romance de risco”.
Pensava eu que sentir o sol e mirar o mar facilitaria a leitura da escrita densa, excessiva e igualmente labiríntica de Agustina. Enganei-me!
Enganei-me e rapidamente deixei de querer saber se o Professor Martin, na companhia de Jeanne Précieuse a sua sedutora mulher linda de morrer, encontrou a chave do enigma que o levou a subir a Serra da Arrábida num velho táxi verde e preto.
Mas não desisti.
Mesmo que Agustina diga que não devemos acreditar em tudo o que nos dizem, sem cinismo prometo voltar a “As Terras do risco”. Lá para o inverno…
Perdoem-me os seus seguidores. São coisas que acontecem.
Entretanto, fico na expectativa que alguém me esclareça se a curiosidade faz mesmo cair o cabelo e engorda.
Valha-me Deus!

As terras do risco, de Agustina Bessa- Luís
Guimarães Ed., 1994
284 págs.

26 junho, 2016

Não sei o que se passa comigo...


Não sei o que se passa comigo.
Perdi a vontade de ler, de escrever, de falar, de sorrir. Apenas me apetece chorar.
Sinto-me totalmente desorientada, desmotivada, infeliz.
Leio as primeiras páginas de um livro, e logo o ponho de lado.
Inicio a escrita de um texto, e logo me enrolo num emaranhado de palavras sem nexo.
Abro o meu “rol de leituras”, e logo o fecho perdida em pensamentos derrotistas.

Eu sei o que se passa comigo.
Uma dor medonha, consome-me sempre que visito a minha mãe no lar aonde agora ela vive.
Cada dia mais velhinha, cada dia mais magra, cada dia mais silenciosa, cada dia mais parada, cada dia mais triste.
Eu, choro de culpa, de impotência, de saudade.
Não há livro, nem caneta, nem papel, nem teclado de computador que me ajude a saber o que fazer.
Vai passar? Não sei.

Mãe!

10 junho, 2016

"Istambul" - Orhan Pamuk

“Quem quer dar um sentido à sua existência interroga-se também, pelo menos uma vez na vida, sobre a situação e a época em que nasceu. O que significa nascer em certo lugar do mundo e em determinado momento da História? A família, o país, a cidade que nos são atribuídos como um bilhete de lotaria, que nos pedem que amemos e que acabamos por amar na maior parte das vezes, serão fruto de uma partilha equitativa? Por vezes, ao ver as reínas e as cinzas do Império Otomano, sinto que tive azar em nascer em Istambul, em nascer nesta cidade a envelhecer num ambiente de derrota, de miséria e de tristeza. (Porém, uma voz dentro de mim diz-me que não, que isso, na realidade, é uma sorte.) No que toca a riqueza, acontece-me pensar às vezes que tive sorte em nascer numa família abastada de Istambul (embora haja quem diga o contrário). A maior parte do tempo, contudo, penso que Istambul, o lugar onde nasci e onde passei toda a minha vida, faz parte do meu destino – tanto como o meu corpo (se ao menos pudesse ter os ossos um pouco mais largos e fosse um pouco mais bonito…) e o meu sexo (a minha sexualidade dar-me-ia menos problemas se eu fosse mulher?), coisas de que acabei por me convencer que não devia queixar-me – e que fazendo parte do meu destino, não pode ser posto em questão. Este livro é sobre esse destino...”
Nasci a 7 de Junho de 1952… em Istambul.

Istambul” cruza a história (da família Pamuk) com a História (da Turquia).
É o relato intimista, autobiográfico, sem filtros, da infância, adolescência e primeiros anos da idade adulta do autor, na cidade onde nasceu e sempre viveu.
É o relato do quotidiano no Edifício Pamuk (a minha mãe, o meu pai, o meu irmão mais velho, a minha avó paterna, as minhas tias, os meus tios e respectivas mulheres: vivíamos todos juntos, espalhados pelos cinco andares do prédio), onde não faltavam pianos, que ninguém tocava; dos passeios à beira do Bósforo, no Dodge modelo 1952, conduzido pelo pai; das estranhas ausências dos progenitores - Por vezes, o meu pai ia para longe… o meu irmão e eu sentíamos que não devíamos fazer perguntas… Na verdade, por vezes a minha mãe também desaparecia.
É o retrato de Istambul, cidade grande, bela, triste e derrotada, a ocidentalizar-se sobre as glórias imperiais mortas e enterradas. Um lugar familiar, com  a sua memória, a sua geografia e as suas mesquitas, e, ao mesmo tempo, é um mundo sem igual, único e por isso mesmo extraordinário.
A complementar a perfeita narrativa cronológica, mais de duzentas fotografias "mostram" a família Pamuk, a fascinante Istambul, o movimentado Bósforo. Sempre o Bósforo. Tudo a preto e branco. Tudo luminoso.
Istambul” é um enternecedor e inteligente livro de memórias, um documento histórico, que nos prende da primeira à última página.
Memórias escritas. Memórias mostradas.
Istambul” lê-se e vê-se. Não se conta.
Acredite!

Istambul, de Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura, 2006
Tradução de Filipe Guerra
Ed. Presença, 2008
365 págs.

Visitei a Turquia, em 2009.
No regresso, escrevi no meu blogue http://fugasreveladas.blogspot.pt/:
"Viagem de férias à Turquia com visita a Istambul, Ancara, Capadócia, Konya, Pamukkale, Éfeso, Izmir, Pergano, Tróia e Çanakkale.
País com um riquissimo património histórico, uma diversidade geográfica impressionante, um contraste entre o antigo e o moderno admirável, um povo simpático e hospitaleiro, foi um destino de férias espectacular.
Em Istambul destaco a visita ao Palácio Topkapi (antigo centro de poder do Império Otomano), a Mesquita Azul (lindíssima com os seus azulejos azuis de Iznik, os minaretes, as cúpulas, um dos edifícios religiosos mais famosos do mundo), a Igreja de Santa Sofia (magnífico monumento bizantino com mais de 1400 anos, foi no século XV convertido em mesquita), o Mercado das Especiarias, o Grande Bazar (um labirinto de ruas com mil e uma lojas repletas de produtos tentadores e lojistas alvoraçados onde apetece voltar sempre, sempre, e comprar tudo, tudo), o Circuito do Bósforo (uma vista deslumbrante de Istambul e dos velhos monumentos), o tráfego constante, o desfrute dos inúmeros espaços verdes, a cozinha apetitosa, etc., etc."
Visite também e deslumbre-se!

07 junho, 2016

16º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa

S2-29.3.1930
Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E, assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde.”

170-(1929?)
“O cansaço de todas as ilusões e de tudo o que há nas ilusões – a parte delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que haveriam de ter tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o maior martírio imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes – brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias – que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem das suas secreções.”

Leia (tudo) e… deslumbre-se!


31 maio, 2016

"Poesia e Prosa" - Eugénio de Andrade


ESCRITO NO MURO
Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.

Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.

Onde a boca sabe
a barcos e bruma.

Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

DO OUTRO LADO
Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

Eugénio de Andrade (1923-2005), in "Poesia e Prosa (1940-1986) – I vol.", Círculo de Leitores, 1987

29 maio, 2016

"Seda" - Alessandro Baricco

Hervé Joncour tinha 32 anos.
Comprava e vendia.
Bichos-da-seda.

Lavilledieu era o nome da vila onde Hervé Joncour vivia.
Hélène o da sua mulher.
Não tinham filhos.

Hervé Joncour, para adquirir os ovos dos bichos-da-seda, deslocava-se para além do Mediterrâneo, à Síria e ao Egipto.
Todos os anos, no início de Janeiro, partia (…) Regressava no primeiro domingo de Abril, em regra a tempo para a Missa grande.
Trabalhava mais duas semanas para embalar os ovos e vendê-los.
O resto do ano, descansava.
- COMO É A ÁFRICA?, perguntavam-lhe.
- Cansada.

No início dos anos sessenta, a epidemia que tinha tornado inutilizados os ovos das criações europeias difundiu-se além-mar, alcançando a África.
Havia que ir ainda mais longe em busca dos melhores ovos.
Havia que atravessar o mundo e chegar ao Japão. Os japoneses produziam e vendiam a seda mais bonita do mundo - mas os ovos, esses não. Levá-los para fora da ilha era crime. Há duzentos anos isolada do resto do mundo, continuavam a proibir a entrada a estrangeiros.
Um dia segurara entre os dedos um véu tecido com fio de seda japonesa. Era como segurar entre os dedos o nada - dizia Baldabiou, o homem que colocou Lavilledieu no grupo dos principais criadores europeus de bichos-da-seda e de fiação de seda e que aliciara Hervé Joncour para o negócio da seda.
Hervé Joncour abandonou a carreira militar e tornou-se comprador e vendedor de ovos de bichos-da-seda. No início de cada ano partia à procura dos melhores. Cruzava mares e terras para os encontrar, escolhia-os, comprava-os, transportava-os para Lavilledieu, embalava-os e vendia-os às fiações locais. Ganhava muito dinheiro. 
- E onde fica, exactamente, esse Japão?
- Sempre em frente naquela direcção. Até ao fim do mundo.
A 6 de Outubro de 1861, Hervé Joncour partiu sozinho.
Levava consigo oitenta mil francos de ouro e os nomes de três homens: um chinês, um holandês e um japonês.
Em Shirakawa negociou a aquisição de ovos e conheceu o poderoso e inacessível Hara Kei, senhor de uma impressionante colecção de aves exóticas e de uma mulher misteriosa, uma rapariguinha cujos olhos não tinham um corte oriental. 
Hervé Joncour regressou a Lavilledieu no primeiro domingo de Abril. Escondidos na bagagem, levava milhares de ovos de bichos-da-seda, e no coração uns olhos que o olhavam com uma intensidade desconcertante.
Nesse ano a produção de seda foi extraordinária.
Hervé Joncour enriqueceu. Completou 33 anos a 4 de Setembro de 1862. A sua vida chovia, diante dos seus olhos, espectáculo sereno.
No primeiro dia de Outubro do ano seguinte, Hervé Joncour voltou ao Japão. Voltou a ver a rapariguinha cujos olhos não tinham um corte oriental. Mil vezes procurou os olhos dela, mil vezes ela encontrou os seus.
Regressou a Lavilledieu com ovos, e uma pequena folha de papel com ideogramas desenhados um debaixo do outro, a tinta preta.
Pagou a Madame Blanche, a japonesa dona de um bordel, para saber o que estava escrito na folhinha.
- Voltai ou morrerei.
10 de Outubro de 1864.
As notícias de uma guerra civil no Japão não demovem Hervé Joncour de fazer a sua quarta, e última, viagem.
Encontrou destruição e terra queimada. Nada soube sobre a rapariguinha cujos olhos não tinham um corte oriental.
De repente viu o que julgava invisível.
O fim do mundo.
A viagem de regresso foi demorada.
Hervé Joncour chegou a Lavilledieu a 6 de Maio de 1865, com milhões de larvas. Mortas.
Seis meses depois, recebeu pelo correio um envelope que tinha dentro sete folhas dobradas cheias de ideogramas japoneses. Guardo-as.
No inverno de 1874 Hélène adoeceu e morreu no início de Março.
Dois meses depois, Hervé Joncour quis saber o que diziam as sete folhas que recebeu pelo correio.
Madame Blanche lia. Ele escutava.
Uma belíssima confissão de amor.
Escrita por Madame Blance. Ditada por uma mulher com voz belíssima. De veludo.
Mas isso, Hervé Joncour só soube muitos anos mais tarde.
Hervé Joncour viveu ainda vinte e três anos.
Sempre em Lavilledieu. Sempre na casa que partilhou com a sua amada.
Quando a solidão lhe apertava o coração, subia ao cemitério, para falar com Héléne,
Hélene, a mulher com voz de veludo.

Seda é um delicado relato sobre o amor.
Uma provável história de amor, tecida com fios de seda pura.
Enigmática, melancólica, contida de gestos e palavras.
… a vida, às vezes, toma um rumo tal que não resta mais nada para dizer.

(Romance oferecido pela minha filhota em Setembro de 2008, esteve até agora "perdido" numa pilha de livros. Lamentavelmente!)

Seda, de Alessandro Baricco
Tradução de Simonetta Neto
Ed. Dom Quixote, 2008
123 págs.

24 maio, 2016

O que está a pensar?


“Gostaria de começar por pedir-lhe que preste atenção ao que pensa ao longo do dia. Determine a qualidade dos seus pensamentos. Costuma ocupar o cérebro com pensamentos destrutivos, como o ódio, a culpa, a ira ou a inveja? Elimine-os completamente e substitua-os por pensamentos positivos.
Se não se libertar dos pensamentos negativos imediatamente, eles acabarão por crescer desproporcionalmente. Ouça-se a si mesmo quando pensa; ficará surpreendido com a sua tendência para pensar negativamente sempre que ocorre uma determinada situação. Esforce-se por nunca ter um único pensamento negativo; assim que se aperceber que está a entrar nesse caminho diga «ALTO!» para si mesmo e esforce-se por pensar positivamente.

É a qualidade dos nossos pensamentos que determina a qualidade da nossa vida.
Ser positivo significa preocupar-se menos e apreciar mais a vida, preferir ver o lado bom das coisas em vez de encher a cabeça de problemas, escolher a felicidade em vez da infelicidade. É seu dever sentir-se bem consigo mesmo.
Se não estiver satisfeito não pode dar satisfação a mais ninguém, não pode ajudar os outros, e não terá êxito naquilo que fizer. 

Poderá ser-lhe útil escrever os seus pensamentos positivos num pedaço de papel e lê-lo várias vezes ao longo do dia. Depois de os ler várias vezes conhecê-los-á de cor; continue a repeti-los até ficarem implantados no seu subconsciente. (…)
Comece hoje.”

Papel... caneta...
Uau! É hoje que a minha vida vai mudar para melhor. 
Estou confiante!!

Tirei daqui: “Pensamento positivo”, de Vera Peiffer, Ed. Presença, 1996
Foto da net.

21 maio, 2016

"Vale Abraão" - Agustina Bessa-LuÍs

O que era o amor? Ema achava-o um derivativo duma vocação profunda e inflexível; um luxo que simboliza paisagem que a ninguém é dado ver; sonhos, apetites, manias que nada mais são do que o desejo de ser uma outra pessoa, de arrancar desses símbolos do corpo (o sexo e os olhos que primeiro pecam) a natureza da pessoa, em toda a sua difusa corrente de movimentos.(...)
Os amantes (…) não lhe serviam senão para através deles consagrar o pecado. Mas só amando se consagra alguma cosa; senão era apenas o silêncio.
Sinopse:
“A recriação duma Bovary, destinada a servir de guião para um filme de Manuel de Oliveira, trouxe à Autora a necessidade de descobrir a natureza flaubertiana que concebeu Ema e a tomou como seu espelho. “A Bovary sou eu” – disse Gustave Flaubert, no auge da incriminação que pesou sobre a sua vida de romancista. De facto, Ema é Flaubert, e o romance é uma história de paixão que tem como adversária a mediocridade. Chabrol soube tocar essa realidade que ofusca todas as outras, ao dizer: “O ser humano é estúpido. O que salva Ema é que ela se bate.”
Ema bate-se contra a rede de pequenas e formidáveis misérias que se apertam em volta dela. Heroína provinciana das insatisfações típicas do ser humano…”
Sem dúvida que a sinopse desperta curiosidade, mas… lamento, ter de dizer que ao reler “Vale Abraão” voltei a sentir enfado e desilusão. Nem a digna descrição da paisagem serena e bucólica das quintas da margem direita do Douro vinhateiro (lugar onde tudo acontece) evitou o meu drama de virar a página ou fechar o livro.
É claro que elogio a excelência da escrita e aplaudo efusivamente a caracterização física e psicológica das personagens do romance, particularmente da mulher que é o centro vivo de uma história, mas não heroína dela…
Ema, assim se chama a protagonista, é uma mulher provinciana, inteligente, bela, sedutora, ambiciosa, divertida, casada com Carlos, que não ama, um médico paciente, um santo, que tudo lhe desculpa, por considerar que ela sofre de uma depressão singular e incurável devido ao efeito da sua manqueira – um defeito na perna esquerda, desde os cinco anos, mãe de duas filhas,que ignora.
Mulher adúltera, tem vários amantes ao mesmo tempo. Não os ama, nem quer comprometer-se com nenhum. “Usa-os” para poder frequentar uma sociedade que lhe está vedada.
Desencaminhada, ou perdida, a sua vida é um constante vaivém de corridas no seu carrinho amarelo descapotável, festas, bailes, viagens. Adora comprar coisas, fazer dívidas, fumar até um pouco de erva e beber às vezes até perder toda a noção da decência.
Grande personagem esta Ema, a Bovarinha.
Agustina não poupa adjectivos para a caracterizar: caprichosa, insatisfeita, interesseira, orgulhosa, invejosa, maldosa, viril, poderosa, vingativa, cabeça louca, provinciana ensaboada, desenganadora, dona de uma personalidade malévola, mentirosa sem escrúpulos, vadia sem despudor, indigna sem preâmbulo, fútil sem vaidade, etc., etc..
Narrado no último capítulo do livro - “UM RIO CHAMA OUTRO RIO”, é triste o fim da menina que cresceu sem mãe numa liberdade demasiada, da jovem fútil que engana o marido e os amantes, da mulher solitária, doente, tristonha e sem alma. 

Quando a perfeição é monótona e repetitiva, cansa!

Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Ed., 1991
239 págs.

17 maio, 2016

É proibido chorar...


“As caras das mulheres, quando choram de verdade, tornam-se intensas e contêm uma beleza aterradora como as esculturas de Gaudi. Deve ser por isso que assusta tanto os homens. Qualquer homem suporta estoicamente que o queimem com um ferro em brasa, que lhe arranquem as unhas ou o esbofeteiem, mas nenhum consegue suportar a visão de uma mulher a chorar. E deve ser por isso, porque o rosto de uma mulher quando chora e soluça se torna poderoso e terrível, libertando todo o género de sentimentos e emoções.
Os homens pensam que choramos contra eles. E aí o instinto não os engana. Eles fazem-nos chorar, provocam o nosso pranto em cerca de noventa e nove por cento dos casos. Choramos de tristeza, de solidão, de medo, mas também de raiva, de impotência, de indignação. E fazemo-lo, igualmente, em um por cento porque temos pena de nós – contemplamo-nos de fora e temos pena de nós. Somos tão estúpidas, tão parvas, tão emprestáveis, tão feias, tão anormais e tão complexadas que temos pena de nós!”

Mulher, acredita em ti!

Tirei daqui: “Como ser mulher e conseguir sobreviver”, de Carmen Rico-Godoy, Ed.Terramar, 1990
Foto da net.

13 maio, 2016

"Arrume a sua casa - Arrume a sua vida" - Marie Kondo


Colocar a casa em ordem é a magia que cria uma vida vibrante e feliz
Dobrar, engavetar ou pendurar roupa é difícil, mas eu safo-me. Mais dobra, menos dobra, e já está!
Ordenar livros e papéis é difícil, mas eu safo-me. Tira daqui, põe ali. Tira dali, põe aqui. Está feito!
Encontrar o lugar certo para “resmas” de objectos decorativos é extenuante, mas eu safo-me. Mudo da sala para a salinha, da salinha para o quarto… “et voilá”!
Arrumar artigos de maquilhagem é complicado, mas eu safo-me. Em caixinhas, cestos, frascos e gavetas “escondo” toneladas de cremes, máscaras, lápis, sombras, blushes, batons, etc.. Escondido fica também o prazo de validade de muitos artigos. Mal!
Guardar sapatos é complicadíssimo, portanto, sobre sapatos nada digo…
Sou ou não sou uma pessoa organizada? Segundo o método de Marie Kondo, a japonesa especialista em arrumações: NÃO!
Eu, que julgava saber tudo sobre dobrar roupa, ordenar livros e papéis, arrumar coisas e mais coisas...enganei-me! E corei de vergonha. 
Bem, o meu problema não é arrumar, o meu problema é o apego excessivo pelas coisas. Todas!
Mas agora isso vai mudar. Este livrinho “arrumadinho”, inspirador e encantador ensina a “deitar fora” tudo o que está a mais na nossa vida. TUDO! E eu, vou seguir rigorosamente o método KonMari e organizar a minha casa, para iluminar a minha vida.
Será possível?! Marie Kondo diz que sim, que é esse o poder mágico da arrumação.

Ufa! Ler este livro cansou-me mas aprendi muito. Particularmente, a deitar fora o que não me faz feliz. Não é fácil, mas é gratificante. A minha casa tem agora MENOS tralha acumulada, MAIS espaço, MAIS luz.
Por MAIS brilho na minha vida…aguardo pacientemente!
Para já, estou programada: deitar fora /arrumar; deitar fora /arrumar…
Arrumar traz resultado visíveis. Arrumar nunca mente. 
Arrumar a casa é divertido!
Hum! Hum!

Arrume a sua casa – Arrume a sua vida, de Marie Kondo
Tradução de Ana Lourenço
Ed. Pergaminho, 2015
157 págs.

10 maio, 2016

"Instruções para salvar o mundo" - Rosa Montero


Porque gostei do que li, volto ao amor de Rita e Matías:

“Durante os quase vinte e oito anos que viveram juntos, nunca disseram um ao outro uma palavra imperdoável. Claro que discutiram e se aborreceram inúmeras vezes. Tiveram temporadas melhores e piores e Rita podia ser desesperante – era amiga de discutir, mandona e teimosa. Mas não conseguiam ficar zangados durante muito tempo porque, passados alguns minutos, um deles começava a rir-se, contagiando e amansando o outro com as suas gargalhadas. E, de qualquer forma, nunca dispararam sobre o outro frases venenosas, nunca recorreram a esse chumbo verbal que alguns casais utilizam para atingir as partes fracas do outro e magoá-lo, a esses vocábulos que são tão explosivos como balas para abater elefantes e que não se utilizam para discutir nenhuma questão, mas para ferir. E, às vezes, para matar.”

Para reflectir e mudar comportamentos.
Perfeito!

06 maio, 2016

"Instruções para salvar o mundo" - Rosa Montero

… às vezes a vida aperta tanto que não deixa lugar para respirar.

A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega.
Começa assim este romance de Rosa Montero, uma história de esperança, fascinante, estranha, hipnotizante.
De entre as muitas e boas razões para a ler destaco quatro: a trama surpreendente e hipnótica; a escrita fluída, acessível e brilhante que nos prende e comove; a mistura rigorosa de humor, horror, ironia; a perfeita definição física e psicológica de quatro sobreviventes, personagens inesquecíveis cujos destinam se cruzam num cenário de escuridão, horror, catástrofe, esperança.
Os quatro têm um pesadelo recorrente: matam alguém mas não conseguem ver a vítima e quando acordam, aterrorizados, o sentimento de culpa continua colado às pálpebras, à memória, e ao coração durante muito tempo.
Os quatro frequentam o Oasis, um bar cuja clientela é constituída por desenraizados, noctívagos, putas e taxistas.
Eles são:
- Matías, 45 anos, viúvo às voltas com a dor pela perda de Rita (o romance começa com o seu funeral), é o taxista mais calado do planeta. Antes trabalhou numa empresa de mudanças, antes foi trolha e muito antes, esteve num reformatório por roubar rádios de automóveis. Quando de lá saiu, a vizinha Rita, professora, decidiu salvá-lo de si próprio. Ele tinha dezassete anos e ela acabara de fazer trinta. Amaram-se e viveram juntos vinte e oito anos. Com ela descobriu o cinema, a música clássica, a leitura. Continuou a odiar futebol. Por tudo isso, quando Rita adoeceu e faleceu, Matías reivindicou a morte dela toda para ele, tal como anteriormente tinha gozado da sua vida.
Voltará a ser feliz…
- Daniel Ortiz, 45 anos, médico, quinze anos de um casamento de mágoa e rancor, sem filhos, sem sucesso profissional, sem amigos, é viciado em jogos de computador e fascinado pelo mundo virtual de Second Life. Mesmo sabendo que é uma perversão parva, é para lá que “corre” logo que termina os turnos nos Serviços de Urgência do hospital. Às vezes parecia-lhe que a vida real era menos real que Second Life.
Certa noite, no hospital trata uma jovem negra cujo sorriso luminoso o faz sentir-se em paz consigo próprio. Será ela capaz de o ajudar a encontrar um sentido para a vida, a abandonar a mulher inclemente que o despreza, a sarar a dor que a tristeza lhe provoca?
Apesar da vergonha atroz vai procurá-la…
- Fatma, uma prostituta negra, bela e frágil. É a princesa do Oasis, mal tratada por Draco o proxeneta dono do bar que a conseguiu legalizar, arranjando-lhe os papéis no mercado negro. Fatma, a puta principesca desenraizada e solitária tem uma única amiga: Bigga, uma lagartixa protectora.
Dois homens irão mudar a sua vida…
- Cérebro, uma velha cientista, solitária e demasiado dada à bebida, é a freguesa mais fiel do Oasis. Chega ao início da noite, senta-se sempre no mesmo tamborete, bebe pausadamente vinho tinto e sai ao amanhecer sem dar sinais de estar embriagada.
A noite assustava-a e não se deitava porque se sentia tão só na cama como um morto na sua tumba.
No Oasis, o álcool e o barulho protegem-na. Ali, ninguém sabia do seu passado, dos seus amores proibidos. Ali, ninguém se atrevia a falar com ela e ela também não parecia importar-se com ninguém. Até um dia…

Que Rosa Montero é uma extraordinária contadora de histórias, eu já sabia.
Que se relem com redobrado gosto, fiquei a saber agora.
Esta é a história de uma longa noite. Tão longa que se prolongou durante vários meses.
Termina assim:
… a Humanidade divide-se entre aqueles que sabem amar e aqueles que não sabem.
Mas essa é outra história.
Leia (esta), por favor.

Instruções para salvar o mundo, de Rosa Montero
Tradução de Helena Pitta
Porto Ed., 2008
285 págs.

03 maio, 2016

15º - Excertos do "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa


159-(1918?)
Cada vez que viajo, viajo muito.”

166-(cerca de 13.1.1920)
Sabendo como as coisas mais pequenas têm com facilidade a arte de me torturar, de propósito me esquivo ao toque das coisas pequenas. Quem, como eu, sofre porque uma nuvem passa diante do sol, como não há de sofrer no escuro do dia sempre encoberto da sua vida?
O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a perdeu, mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.
As quatro paredes do meu quarto pobre são-me, ao mesmo tempo, cela e distância, cama e caixão. As minhas horas mais felizes são aquelas em que não penso nada, não quero nada, não sonho sequer, perdido num torpor de vegetal errado, de mero musgo que crescesse na superfície da vida. Gozo sem amargor a consciência absurda de não ser nada, o antessabor da morte e do apagamento."

Leia (tudo) e… deslumbre-se!

01 maio, 2016

Poema à Mãe


POEMA À MÃE

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz::
    Era uma vez uma princesa
    no meio de um laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe,
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Poema de Eugénio de Andrade (1923-2005), in "Poesia e Prosa (1940-1986) – I vol.", Ed. Círculo de Leitores, 1987
(foto da net)

26 abril, 2016

Centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro


O fidalgo e o lavrador
É meia-noute. No baile
Folga tudo e tudo dança.
À mesm’ hora o lavrador
No seu casebre descansa.

Uma hora. No palácio
Agora vai-se almoçar.
Na choupana o lavrador
Já terminou de jantar!

Dorme o fidalgo num leito
De penas, sobressaltado.
Em tábuas o lavrador
Repousa, mas sossegado!

Fim
- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro…

Mário de Sá-Carneiro foi poeta, contista, ficcionista. Nasceu em Lisboa (1890), suicidou-se em Paris (26 de Abril de 1916).

Caricatura de Mário de Sá-Carneiro, feita por Almeida Negreiros, pintor e escritor português (1893-1970).

O jogo de futebol


“Porque é que todos os domingos, milhões de pessoas ficam com os olhos colados ao televisor? O que é que o futebol dá aos que o vêem, o que é que lhes oferece, de que forma os enriquece?
Alguns defendem que não dá nada, e contrapõem o desporto praticado ao desporto espectáculo, que seria apenas um jogo de emoções, uma embriaguez fantástica, um desabafo dos instintos. Uma espécie de orgasmo colectivo com que todos descarregam frustrações e os rancores da vida diária. Estes pessimistas não vêem nele nada de positivo, mas apenas uma prova da irracionalidade humana.
Os sociólogos e os psicólogos, pelo contrário, são mais optismistas e defendem a tese de que o indivíduo tem necessidade periodicamente de esquecer a sua própria identidade, de se fundir com o colectivo. No estádio todos são iguais. O advogado, o médico, o operário e o seu chefe, o juiz e a dona de casa, os ricos e os pobres esquecem quem são e sentem uma embriaguez de liberdade. Explodem em excessos, gritam, abraçam-se, fundem-se todos para formar um novo e poderoso organismo superindividual. Depois, em casa, cada um regressa a si mesmo, à vida de todos os dias.(…)
O jogo de futebol é uma metáfora da vida.

Goooolo!

Tirei daqui: “O Optimismo”, de  Francesco Alberoni, Ed. Bertrand, 1995
(foto da net)

24 abril, 2016

"As primeiras coisas" - Bruno Vieira Amaral

"No Bairro Amélia come-se de tudo: moamba de galinha, calulu de peixe, cachupa, cozido à portuguesa, enguia frita com arroz de grelos…"

QUANDO, EM FINAIS DOS ANOS NOVENTA, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.
Começa assim o Prólogo de quarenta e sete páginas (belíssimas) do romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, uma ficção inspirada em realidade pois o escritor (n. 1978) cresceu no Bairro de Fomento à Habitação, no Vale da Amoreira, concelho da Moita, distrito de Setúbal.
A voz que ouvimos é de Bruno Eugénio, que diz mais à frente:
Saí para o mundo convicto da vitória e regressei, cabisbaixo, com o meu fracasso. Não importa detalhar o insucesso. Direi apenas que a queda não foi tão espectacular que não me envergonhasse. Foi um fracasso ordinário e marcante.
A minha mãe acolheu-me com impecável sentido de responsabilidade e o sentimento da mal disfarçada incomodidade de quem recebe um presente que não aprecia ou de que não precisa. Resignou-se. (…)
Foi assim que me encontrei de regresso ao Bairro Amélia: desempregado, desamparado, um pouco órfão…
Quarenta e tal páginas depois, ele confidencia:
O reflexo que o espelho me devolvia era uma cópia degradada do homem que, há poucos meses, eu contemplava com satisfação. Chegara ao fim. Não era agonia. Era cansaço, desemprego existencial, lassidão dos membros, a ânsia de adormecer.
Não! Bruno não chega ao fim. É salvo por Virgílio, o fotógrafo de voz rouca que lhe bate à porta, lhe entrega um envelope, e lhe diz «tenho algumas coisas que te podem interessar». 
Coisas que lhe interessam e o salvam...
Ao Prólogo segue-se um  “dicionário incompleto” com oitenta e seis pequeninas histórias… memórias, embustes, traições, homicídios, sermões de pastores evangélicos, crónicas de futebol, gastronomia, um inventário de sons, uma viagem de autocarro, as manhãs de domingo, meteorologia, o Apocalipse, a Grande Pintura de 1990, o inferno, os pretos, os ciganos, os brancos das barracas, os retornados: a Humanidade inteira arde no Bairro da Amélia, um lugar perdido na Margem Sul do Tejo…
Se o Prólogo é belíssimo e divertido, o Epílogo é lindo, profundo e comovente.
Hoje, assinámos os papéis do divórcio. Não a via desde o dia em que saí de casa. Está bonita. Cumprimentámo-nos. Acabou. (...)
Acabou, sim, porque eu nada mais desvendo.

Há muito que não lia um romance que me empolgasse tanto. Arrebatou-me a escrita concisa, clara e fluída, a narrativa empolgante, viciante, rica em detalhes, bem doseada de graça e seriedade.
Por favor leia!

As primeiras coisas”, de Bruno Vieira Amaral (Prémio Literário José Saramago, 2015),
Quetzal Editores, 2013
301 págs.

19 abril, 2016

O Cínico e o Entusiasta


O cínico
- não acredita na bondade dos homens…
- sabe que o ser humano é sonhador, ingénuo, hipócrita, ambicioso, avarento, vil, oportunista e mal-agradecido…
- é vaidoso e adora a adulação…
- sente-se acima do bem e do mal, está pronto para explorar as baixezas humanas, os vícios humanos, para alcançar a sua meta…
- é maquiavélico…
- a sua virtude fundamental é a astúcia…
- sabe ser paciente…
- sabe conduzir os homens para onde quer…
- desconfia das pessoas que se declaram amigas e pensa que o fazem por oportunismo…
- não tem ilusões…
- é um manipulador das paixões…
- não pensa melhorar o mundo, não acredita nisso…
- explora o lado pior dos que o seguem, envolve-os no seu cinismo…

O entusiasta
- é um sonhador infatigável, um inventor de projectos, um criador de estratégias, que contagia os outros com os seus sonhos…
- sabe que existem dificuldades, contrariedades, talvez insolúveis…
- sabe que nove de dez iniciativas falham, mas não esmorece, recomeça do princípio, renova-se…
- é um criador de possibilidades…
- sabe que o homem é fraco, sabe que existe o mal, vê a mesquinhez, sofre desilusões.
- faz apelo à parte mais criativa, mais generosa dos que o rodeiam, incentiva-os a usarem-na, força-os a serem melhores, arrasta-os consigo demonstrando que, agindo com impulso, com optimismo, com generosidade, as coisas são possíveis.”

Lembra-lhe alguém?

Tirei daqui: “O Optimismo”, de  Francesco Alberoni, Ed. Bertrand, 1995
(foto da net)

15 abril, 2016

"Adivinhas de Pedro e Inês" - Agustina Bessa-LuÍs


A História é uma ficção controlada. 
“Adivinhas de Pedro e Inês” é um romance histórico feito de muita investigação e imaginação, que relata a história do amor trágico de D. Pedro e Inês de Castro.
A “voz” que tudo desvenda sobre os mais conhecidos amantes portugueses, é de uma mulher que visita lugares míticos, levanta e questiona dados biográficos, reflecte sobre a verdade histórica arrumada em arquivos, “lê” as pétalas interiores e exteriores da rosácea da cabeceira do túmulo de D. Pedro, consagradas respectivamente aos amores idílicos e aos amores punidos, desmonta mitos.
A narrativa começa assim:
Visitei há muitos anos a Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e baloiçavam (…)
Depois da morte de Inês, acontecida nesses famosos lugares, andou sete meses dementado o Infante, queimando e destroçando aldeias e semeaduras; tais flagelos sangravam do seu coração (...)
E termina assim:
Porque teve Inês, na sua maturidade, um intuito tão manifesto de ser rainha? A ambição resulta da felicidade ignorada. Possivelmente ela nunca amou D. Pedro, e a sua vontade de poder era uma forma de suspirar (…)
Lido e relido, este romance não me cativou.
Nem o aviso: as adivinhas de Pedro e Inês ficam entregues à imaginação do público, dos leitores... me fez gostar duma narrativa enfadonha e repetitiva.
Lamento!

Adivinhas de Pedro e Inês, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães & Cª Ed., 1983
239 págs.

12 abril, 2016

O Pessimista e o Optimista


“O optimismo e o pessimismo, à primeira vista, parecem duas qualidades equivalentes, com vantagens e desvantagens de sinal oposto:

O pessimista
- é excessivamente prudente...
- tem uma visão negativa do futuro e uma visão negativa dos homens. Quando os observa descobre em todos as piores qualidades, as motivações mais egoístas, menos desinteressadas…
- para ele a sociedade é formada por pessoas avarentas, corruptas, intimamente perversas, sempre dispostas a explorar as situações em proveito próprio…
- é um avarento. Para quê ser generoso, se o mundo está cheio de gananciosos, corruptos, exploradores?
- muitas vezes é, também, um invejoso…
- está encerrado em si mesmo e não ouve os outros, sente-os como entidades ameaçadoras…
- vê tudo negro. Seja qual for o tema de que se fale, o projecto que se faça, ele descobre logo os aspectos negativos. Paralisa e paralisa-nos. Não tem confiança e tira-nos a confiança.
O optimista
- é mais virado para a acção, é mais activo…
- confia nos homens, corre riscos. No entanto, se o observarem atentamente, verão que ele vê realmente as maldades e as fraquezas dos outros. O que acontece é que ele não se detém perante estes obstáculos. Conta com o facto de em todos os seres humanos haver qualidades positivas e procura despertá-las.
- está atento às pessoas. Deixa-as falar, dedica-lhe o seu tempo, observa-as. Desta forma consegue identificar em cada uma o aspecto positivo, a qualidade que pode exaltar, fazer frutificar.
- supera as dificuldades… porque está aberto às novas soluções e pode rapidamente transformar uma desvantagem em vantagem.
- comparado com o pessimista, parece um ingénuo.

Em suma, o ideal parece ser uma mistura sensata de ambos.

Concordo!

Tirei daqui: O Optimismo”, de  Francesco Alberoni, Ed. Bertrand, 1995
(foto da net)